Mentiras pra você


 Foi por acreditar em seu mundo de cores que Camila acabou pagando pela sua fé. Foi por crer em palavras ditas em euforia. Por crer em olhos amarelos jurando eternidade. Por crer em lábios ternos um amor adolescente. Por crer em olhos puxados quando lhes prometeram as estrelas.
 Foi por acreditar nas palavras de um certo andarilho que ela abriu os olhos para a realidade. Suas pupilas dilataram, seu olhos doeram, sua cabeça sacudiu e o ar faltou quando viu todas as cores vesti-la de negro. Foi por acreditar que tudo o que tinha passado era num tom de amarelo-dia-de-sol que viu suas noites se tornar cinza-cor-de-coração-pesado. O seu mundo tinha sido apagado com o látex da covardia de um andarilho leviano. Um pouco de bebida, umas notas jogadas na rua, uns trocados no bolso, uns dias imersa na água... Tudo aos poucos foi levando seus pés para a beira de um precipício que ela nem viu subir. Foi por acreditar em encenações tão bem feitas, que começou a se encantar pelos palhaços que passaram pela sua vida. Achava engraçado como os palhaços pareciam querer salvá-la sempre, mas não sorriu quando os dois deram as costas para ela.
 Foi por acreditar que as coisas são como ela vê que seus olhos não vê nada além do seu teto cinza hoje. Sua proteção está mais grossa agora e parece virar uma castanha de tão dura a casca. Impenetrável, incorruptível, inconsolável. Os cabelos soltos cobrem o rosto amargo e o cigarro desfaça as palavras pesadas. E então foi dado o golpe final, a ultima cartada, o tiro na nuca. Com seus pássaros veio quem parecia ser esperado. Foi concebido enquanto o seu campo florescia, enquanto os campos estavam brancos de algodão. Foi gerado com fogo, com liberdade, sem medo. Foi escrito nas costas suadas com as unhas dos quatro dedos dela.  No balanço triste e profundo do blues, no sexo do rock, na levada do samba, nasceu o que ela não podia acreditar, não podia, não, não, não. Saiu de entre as feras, a peste mais forte, mais sensual, mais perspicaz, fazendo-se de todas as formas o mais parecido com ela, rodeando antes de devorar teu corpo, antes de correr suas entranhas com seu leite.
  Ela acreditou em promessas ciganas, em palavras secas. Viu seu corpo afundar e emergir centenas de vezes antes de perceber a realidade, e como uma dançarina ela veio, como quem não quem não quer nada, ajeitando o ombro no queixo, fazendo seus passos lentamente, até que a tirou pra dançar. Nessa sua dança, Camila girou, rodopiou... Até que caiu. Seu talento escorreu pelas mãos, sua voz se esvaiu, perdeu seu parceiro e o resto de coragem que tinha pra olhar no espelho. Agora um novo futuro será traçado.

Se fosse verdade


- Eu... Eu ainda não sei o nome dela, mas ela é como daquelas mulheres que não se esquece. Daquelas mulheres que olham nos seus olhos no meio da multidão e por alguns segundos consegue deixar sua visão turva. O corpo adolescente e uma mente fantasiosa, ela engana com a língua aqueles que não vêem seu coração. Não se rende fácil e costuma observar o abismo da ponta. Ela atrai os inimigos e costuma sempre cutucá-los com suas palavras ardentes, sem se importar muito com o que pode ou não acontecer. É daquelas que derruba o copo no chão sem olhar ou evitar.
  Por fora, ela é exatamente o que precisa ser: alguém que devolva palavras piores, com seu escudo maior que a batalha, decepando a visão dos inimigos guiando-os para o que acreditam ser. A aparência de filmes escuros, a voz de um dragão, a impureza e indolência. Sem dó, sem pena, sem conseqüências, ela baila em calçadas levando seu corpo aos limites mais altos sem esperar que haja mãos para apará-la no ar. Coleciona mentiras e desamores, distribui desaforo e socos. Uma garrafa de cachaça... Uma dose a mais... E seus leões fazem a guarda de sua casa vermelha. Sai armada até os olhos para prevenir feridas que nem sabe se vão se formar.
  Seus pais já não se importam onde dorme o que come ou quais drogas já se viciaram nela. Pra falar a verdade nem sei quem se importa. Ela entrega seu coração para quem é tão leviano. Seus segredos para os que disseminam o mal e seus problemas em forma de conselhos.
  Mas eu a vejo. Sempre a vi. Vejo seus porquês e entendo seus atos. Já trilhei pelo caminho que seus pés andam, já bebi da água que ela bebe e sei como é manter o rosto pintado para alegrar e desagradar outrem. Só por isso, meu coração ainda palpita em vê-la correndo para braços cruzados, se dando para quem nada quer, andando com quem não caminha com ela.
  Deus? Pra ela é como um amigo que vira as costas. Amor? É o que a deixa fraca e quase que invertebrada. Ela ainda assim, protegida por uma fajuta tinta, ver esse mundo de guerras e batalhas como poesia, como música. Pra ela ainda há uma paixão infinita num copo de vidro. Há amor em sacos plásticos. Há verdade em palavras molhadas de chope. Meia-noite como em conto de fadas, o encanto termina e ao abrir os olhos num quarto dado por um favor, ela olha pro teto durante horas, enquanto o ventilador resseca seus lábios, ela pensa, eu sei que pensa... Quem poderá estender a mão para tirá-la dali?

Quatro contra uma

A música, a dança e o fim.
  Começava tristonha, como um blues embriagado. envolvente e quente, com solos sutis de uma guitarra elétrica e com a marcação muito bem feita da bateria. O baixo dançava lentamente com a guitarra. Então, aquela voz que acostumou-se a gritar tanto em meio seus desesperos e noites boêmias, agora tem um só tom. Fala como se estivesse de frente para o espelho em dias difíceis. O barulho que estava lá dentro se rendeu à essa voz que ainda não tinha uma origem certa. Parecia que estava vindo de dentro da sala, parecia que estava apenas usando a casa como um mero retorno. Indiferentemente disso, a música transtornou sua cabeça. Encheu seus olhos de sangue, a raiva de vidas passadas voltou a tona e como dois pólos positivos o que antes se atraia agora se repele mutuamente.
  Cercada de interrogações e de reprovações, teve que fazer uma escolha em deixar de ser o que sua vida pregressa lhe ensinou a viver. Deixar seu lado frio e agressivo, trancar dentro de si todos os leões e suas aranhas para deixar que seus pássaros pudessem voar. Soltar a coleira das panteras que guardava em si e vê-las correr no pátio como gatinhos indefesos. Colocar no chão, parte por parte de toda a sua armadura, todas! Com cada uma das marcas de suas inúmeras batalhas, despetrificar seu coração, encher-se de gozo e aceitar-se vulnerável. Ou, muito mais facilmente, manter em si todos os seus artifícios sem para uma vida que tem hora certa para acabar, para que não tenha o pretexto de não ter força pra peitar fulano ou ciclano. Pra bater de frente com o que puder e se morder de medo pelos seus quatro medos, que mesmo vencidos, ainda perturbavam seu mundo. Deixar as lembranças de lado e se entregar numa nova era. Deixar a segurança de reviver mil passados, sofrer as mesmas dores e se entregar na insegurança de viver o novo e desconhecido.
  A música agora está morna. E as lembranças dela estão passando no seu rosto. Ela se desespera, coloca a mão no rosto como se enxugasse águas de um rio dos olhos, cerra os olhos firmemente e tenta esquecer. Seus medos saem todos para tentar lhe ajudar. O coelho agora como seu verdadeiro espelho segura pela a mão e tenta mostrar que nada disso é verdade e que tudo pode ser sentido diferente se usar um pouco mais da razão. O que chorava agora rir sem mais, embriagado de lágrimas e rancor, rir sem parar. Uma baba espeça e esbraquiçada corre dos cantos de seus lábios, tamanho fervor da risada. O terceiro medo, levanta-se do sofá rapidamente e a abraça, tenta trazê-la para dentro de sua casa, com o cheiro de sua casa, com um rosto pintado de cilada, ele tenta fazer com que os outros medos. O desespero visto naqueles olhos cor de vinho sobresaí qualquer desespero de vietnamita em tempo de guerra. Ela se vê derreter dentro de si repetidamente, a prisão é sua mente, seu corpo já não é seguro, escrava de sua mente. Está pequeno e claustrofóbico. Impossível de se respirar. Ela olha e vê seu mais temido medo, sério e calado, frio e sem dor. Ele vira-se e vai embora lentamente, como quem pede para ficar. Ela tenta gritar, mais um de seus medos tampa-lhe a boca, sufoca seu pedido de socorro, enterra suas emoções. E nasce em suas costelas, uma marca a mais, mais uma parte de sua armadura se cria.

Quatro contra uma

  
  Ela chamou todos os seus quatro medos para uma conversa. Marcou com todos os quatro no mesmo lugar, no mesmo horário, isso contando com o grau de atraso de cada um. Ela preparou o lugar com as coisas preferidas de cada um. Levou cachaça, rock, alguns livros e filmes, violões. Separou delicadamente uma porção de músicas para que eles pudessem entrar no clima da conversa. O aroma não poderia ser diferente, todos não escapavam do forte cheiro que ela exalava, então quanto a isso, tudo estava acertado. Velas. Uma infinidade de velas. Parecia uma igreja em dias dificeis de tantas velas espalhadas, pelo chão, pelos móveis, em cima e embaixo de todas as coisas. Se eu pudesse contar, diria que tinha uma vela para cada palavra.
   Como planejado eles chegaram todos juntos. O problema de seus medos era não enxergar uns aos outros. Cada um se via ali como se fosse exclusivo, dono da cabeça dela. Como ela esperava, cada um se acomodou na sua forma de existir. Um sentado numa cadeira de madeira com detalhes que lembram muito móveis reais, com pernas cruzadas, um lord dentro de um copo pequeno. Outro, sentou-se no sofá, como um amigo de muitos anos, alguém que conhece sua casa, alguém que é parte da casa. Outro, em pé, esperava o momento certo para se sentar, tudo calculadamente pensado e planejado. O último ficou do lado de fora.
   Ela os olha e sente seu coração palpitar em dor. Sabe o que vai falar, sente o que vai falar, planejou isso e até escreveu sobre, mas nesse momento, o silêncio parece cair tão bem, como cortinas em uma janela. Ela então entona a voz, afasta os cigarros e começa a falar. Primeiramente para o que se sentou primeiro, para que também vá embora primeiro. Olha no fundo de seus olhos e vê o amigo que sempre quis ter, uma versão de si mesma.
 "Reza a lenda que você me deu um nome e que esse me tornou o que agora sou. Reza a lenda que o final não é para nós e sendo assim, esta conversa é apenas uma das mil que teremos diariamente. Reza a história que seremos sempre assim, com todos os espinhos que você viu em mim."
  Ele se levanta e a abraça ternamente com um misto de amor, paixão, desejo e cumplicidade. Transforma-se em um coelho e senta-se perto os pés dela. Um medo já tinha sido vencido, deu o braço a torcer e deixou seu desejo de lado para trazer o companheirismo à tona.
 Ela então vai ao que estava em pé, para que antes que ele se achegasse, colocasse ele de volta ao lugar que pertencia. Na minha visão, com essa ela foi mais dura, me deu um misto de sensações. Parecia que ela não o queria nunca mais, estava decidida à viver sem ele, ao mesmo tempo em que ele parecia lhe dar segurança e liberdade. Ela de pé, pegou no colo o coelho e disse em voz alta, como o tom que tinha quando brigavam:
 "Ora, meu amor, onde foi que você se perdeu? Onde nesse caminho que você me deixou? Onde estão tuas asas, meu bem? Por que agora você se esconde atrás de asas de metal, sorrisos de madeira e um coração de plástico? Erguer teu corpo em sacríficio ao nosso deus não é e nunca foi prova maior de teu amor. Vejo de longe o quão vazio está tua boca, em vista do que um dia fomos. Você veio, como diria o profeta, meu deu um pouco do seu amor, conversou comigo e disse que voltaria amanhã. O amanhã vai e volta e seus pés não se chegam mais em mim. Não há calor em ti e nem mesmo leveza. Tudo o que voava agora só se faz gélido e triste. O que houve com teu coração resfriado de tanta ventania? E quando que sua cabeça congelou?"
  Ele se tremia do alto da cabeça à planta dos pés como se estivesse possesso. Seu corpo se contorcia em ódio e seus olhos puxados estavam puro sangue e cólera. Ele fechou os punhos e contra a parede arremessou todo seu braço, abrindo um buraco entre tijolos e cimento. Depois, viu que seus dedos já não respondiam seu corpo e os tendões já tinham estourado. Ele se sentou no chão como um menino e colocou-se a chorar. Ela o olha com desprezo e dó. Um medo que ela tinha vencido, transformando-se no medo dele.
  O que estava sentado no sofá como um velho amigo, ficou olhando para ela falar coisas com ninguém (lembrando que os medos não podiam se ver), foi logo falando:
 "Quando foi que eu me perdi? Oras, quando você me deixou! Eu quis você e você foi logo marcando outra opção, me deixando só e fechado. Eu me perdi sim, mas só eu me encontrei, quando vi que você também estava só. 'Cê sabe do que eu to falando, eu sei que sabe. Eu posso ver sua cara de espanto quando eu começo a ver você por dentro. Eu ainda a quero, como quero todas as outras, como eu nunca quis ninguém. Eu não quero me acostumar com você, quero me apaixonar por você e te ver apaixonada por mim. Vou cuidar de você enquanto vou tirando sua capinha fajuta..."
  Ele continuou seu discurso por horas. Um única voz dentro do silêncio. Ela o olhava e o mantinha no mesmo lugar. Ela não o quis vencer, nem mesmo trazê-lo para perto. Ele era o medo que ela gostava de ter, uma pequena porção de realidade no seu mundo tão caótico com formas e cores em movimento tempo. Nisso tudo ele era a parte cinza e concreta do mundo abstrato dela. Ainda assim, leve, solto, livre. Ela o manteve no sofá, mas sua atenção se desviou bruscamente para o que lhe esperava lá fora.
  Estava frio e escuro. Tudo o que se podia ver eram brasas de um cigarro ilegal acesas e vermelhas, tal qual o seu cabelo. Ela deixou o coelho e o lugar, foi lá fora pra fazer seu ultimo ato, esse ainda não planejado. Suas pupilas se acostumou com o escuro e a fraca luz que resistia à distância consegui chegar a sua face gorda. A iluminação estava perfeita. Se via as curvas dos rostos e nada mais. Ela olhou nos olhos do seu medo mais cruel. Cruel por trazer a tona todas as suas lembranças mais mesquinhas e covardes. Cruel por fazê-la necessitada daquele mal. Ela o olha nos olhos e não entende ainda como atacar e muito menos como se defender. A fumaça alimenta aquele ambiente, ele não se esquiva, não ataca, não começa. Lá dentro ainda tem barulho, enquanto fora o silêncio é o cantor da noite. O tempo vai se quebrando e quando ela se ver novamente, está com os seios colados no peitoral dele. A respiração com cheiro do cigarro está na sua orelha, o calor quebrou o frio no meio. O coração dele está à mil e o dela já parou de bater. De longe se ouve uma música. (...)

bangbang





- Shiiiiii
- Que foi?
- É ela. A menina que falei.
- Quase mulher né.
- Shiiiiiii! Fale baixo.
- Certamente. Ela fez mesmo tudo o que você me disse?
- Sim. Come criancinhas, bate na mãe, ameaçou cortar a perna do pai e dá pra qualquer um. Prostituta e das piores, das que se vendem para comprar drogas. Deve ter todas as doenças do mundo. A AIDS nasceu dela. Tem cinco abortos nas costas e três filhos no orfanato...


  Oi. Meu nome é Anne. Às vezes Anne K, Anne Kawaii, Annie. Devo não prestar mesmo. Tem dias que acordo e digo pra mim mesma que não presto. Tem dias que olho no espelho e tenho vergonha do meu corpo, cabelo, nariz. As pessoas pregam muito ao meu respeito. Parece que carrego no peito um emblema que as autoriza falar, comentar e opinar sobre mim. Dificilmente desisto de minha opinião. Cabeça-dura é um termo que eu inventei. A sua religião, opinião, posição provavelmente não vão me influenciar em nada.
  Há quem diga que é carência de atenção. Há quem diga que é falta de caráter. Eu ainda não sei como chamar essa agressividade que tenho nos olhos e o veneno da língua. Não meço palavras para falar o que penso. Alguns saem feridos, outros criam o velho ódio no peito contra tudo o que penso, sou, falo, ouço.  Ainda assim eu saio deixando alguns casos de amor. As mães geralmente falam para os filhos: Se você ficar como aquela menina... Te mato!
  Eu não sou um bom exemplo e nem pretendo ser. Por muito tempo isso me foi cobrado e agora, dou maus exemplos gratuitos. Eu saio para beber, durmo na rua e estou sempre rodeada de meninos. Eu falo de putaria e uso rock'n'roll, falto o trabalho sem justificativa e coisas que não vou falar. Eu não me faço, não disfarço. De tudo não podem dizer que sou falsa. Eu não finjo e não forço amizade, não estou a procura de amor ou segurança. Sou egoísta e seletiva. A arrogância é um mau secundário, não é minha intensão. A minha reputação é maior que eu mesma. Não me preocupo nenhum pouco com meu cartaz. Prefiro até mostrar exatamente isso para os demais. Olhar todos irados, desgostosos e envergonhados com uma mera atuação é ligeiramente engraçado. Triste é quando me veem de verdade, olham através das máscaras e da embriaguez. Em 18 anos eu sou exatamente o que não queria que eu fosse e sou com louvor. Eu não abaixo a crina e não pretendo fazê-lo. Eu não sou o que você quer ver.
  Não tenho interesse em ser a mocinha da história ou a mais legal do grupo. Eu não quero muitos amigos. Eu quero os de verdade que sejam verdadeiros em todos os momentos, desde os de epifania aos de summertime, os que compreendem bem todas as fases lunares de um caranguejo tão escorpião. Não me interesso por pessoas que se prendem na minha imagem. Eu de fato não sou um bom exemplo disso. O pomo da discórdia, o prego que se destaca, a junkie. Falam de mim o que podem e o que não podem. Se eu fosse exatamente o que pregam, talvez nem vida me restaria. Eu não entendo por que falam. Ainda que fosse verdade, por que falar?
 Não me exija então, maturidade. As ocasiões sempre me forçaram à aceitá-la e para meu melhor, eu prefiro comê-la em pequenas porções. Não me exija que eu fale. Pra mim, cada pessoa é uma armadilha, até que me prove o contrário. Não me exija força. Se eu disse tudo isso é por que estou começando a tirar dos meus ombros o que já não consigo levar. Me deixe reagir à você e prepare-se. Não me exija fé. Eu não vejo esperança para mim.


Anne de Paula - Dois de julho de 2011

Do Capitão para o Exército


Vós, vestidos para a guerra, armados até os fios dos cabelos, munidos de coragem e sensibilidade única, treinados exclusivamente por si mesmos, não desistam.
As futuras batalhas que travarão serão as mais árduas de suas vidas e não haverá igual à outra. Trarão traumas talvez nunca curados, trarão iluminações advindas em meio a batalhas. Não vos encanteis com as belas paisagens, mas aproveitem tudo delas. Elas passarão, o céu se fechará, chuva forte cairá e é possível que neve também. Estejam preparados para isso e não para as boas vistas.
De fato, de verdade, não há um inimigo. Não é uma prova de força, mas de resistência e paciência. Vocês vão achar que já ganharam o mundo quando só estão na porta do seu quintal.
Não fiquem pensando em quantidade, tamanho, força... Tentem sentir a intensidade, a verdade, o fogo que virá pra vos aquecer.
Não fiquem, soldados, reparando na forma de lutar dos outros. Cada um tem sua porção de força, cada um tem seu valor, cada um carrega um capacete diferente. Entretanto, nunca deixem que tirem o seu, não aceitem uma transferência de capacete, luvas, armaduras ou quaisquer outro material. Sejam sempre completos em questão de proteção e segurança. Não permitam que vos troquem os pensamentos. Siga o que teus olhos vêem e como disse, o que a intensidade vai te dizer.
Sejam sensíveis. Não há possibilidade de ir para o campo sem o mínimo de sensibilidade para entender quando devem avançar ou parar. Se não desenvolveram isso, não saiam debaixo do seu acampamento, fiquem em casa.
Não se preocupem com o fim do caminho ou com o destino que ele vai guiar. Não fiquem preocupados se enfrentarão muitos moinhos ou se cairão várias vezes. Vocês sentirão quando deve seguir. Se houver perguntas sobre qualquer coisa, já é um sinal que não devem ir. Esta batalha é para os que não temem. No meio das tempestades, das batalhas, das atribulações, lembrem-se de não gritar. Gritar acorda problemas maiores que os atuais. Abram vossos olhos e lembrem-se que a armadura não deve cobrir o coração.
Vocês sairão de suas casas em rumo a inúmeras batalhas e elas te levarão para o seu lar.

As fases da Lua

O que está morto é deixado morto. Das cinzas uma vida nascerá. Outra fase se iniciará hoje, chamada Flamedua.

Significando o silêncio


Vamos queimar nossas caixas. Regar tudo com cachaça. Acenda um cigarro e jogue fora o seu fósforo. Certifique-se que nada ficará sem fogo. Quero ver as cinzas desse amor. Queimaremos tudo. Vamos ver o fogo de longe. Dará estalos com som de amor. A fumaça aposto que será vermelha. Sente comigo na grama, vamos ver tudo ser consumido pelo fogo.
Quero assistir até que o fogo se apague por si só. Ver a fumaça cobrir o céu e ressentir o que eu sentia na época que estava embalando cada um deles com plástico bolha. Acenderei um cigarro pra assistir. Meu peito estará gritando mas temos que fazer isso. A música já não faz sentido e as cores estão se escondendo dos meus olhos.
Minhas palavras, veja só, estão desligadas e sem nenhum sabor. As coisas mudaram e nós não vimos. Então por hora, vamos queimar tudo o que nós tínhamos. Os desenhos, textos, sexos, beijos e suspiros. Tudo bem ensopado de álcool e queimando à luz da Lua. Vamos finalmente cremar o que já estava morrendo. Como quem ver o velório do pai, vamos assistir nossas caixas se desintegrarem com tamanho calor.
Vamos queimar tudo. Vamos fazer tudo novo.

Outono

 
 E agora que meu ventre está gerando o que vai poder me matar, baby, eu só quero ir embora. Vou ligar para meus amigos e dizer que está tudo bem, é temporário. Amenizar antes que algo pior aconteça e não tenha como falar. Vou perguntar sobre o projeto de vida que eles têm e sorrir com eles. Vou rir e gargalhar do sarcasmo, mas baby, quando isso acabar, me leve daqui.
 O Sol está se sentando todo formoso e gordo para assistir. Meu pai está rico, ela está cada dia mais bonita (ao mesmo pé que está ranzinza), Anna crescerá muito segura desse mundo. Baby, está ficando tarde e eu tenho que ir.
 Sabe do que mais vou lembrar? Do sofá laranja. Eu já sorrio esperançosa toda vez que lembro dele. Noites nele, algumas noites difíceis de se passar, algumas noites facilmente assobiáveis. Terei mais saudades dele.
 Meu amor, é inútil fingir que eles nunca virão me buscar. Eles já estão aqui começando a levantar poeira perto de mim. Eu vi. Não sonhei ou devaneei. Eu vi. Vi vinte e sete cavalos se alinhando no monte. Eles desenhavam um novo Sol com suas silhuetas fortes, mas agora descem à galope para me encontrar. Baby, por que o tempo não me ama? Eu sempre guardei relógios para que de alguma forma eu pudesse guardar um pouco de tempo, mas ele sempre me teve cativa. Parece que sempre vou chegar atrasada.
 Acho que nesse rio de largas margens não vou entrar. Vou me apressar para o Oceano para apreciar os que me têm com apreço. HaHa! Viu como as palavras se encaixam? É tão engraçado. Eu vou dançar talvez mais uma música e olhar os barquinhos deslizarem no espelho azul.
 Baby, eu estou pronta. Pegue minha mão e me leve para o mar. Não esqueça meus óculos. Morrer é simplesmente lindo.

What do u think about the bomb?


E já que você não me ama... Já que você não me quer... Eu quero é que você se lasque! quero que você se dane! Quero que você se hospede na morada do Capeta, e no caldeirão da morte, quero que ele te derreta.

Na sopa do Cão... No caviar do Capeta... Na sopa do Cão... No caviar do Capeta... Na sopa do Cão... No caviar do Capeta... Na sopa do Cão...


E já que você não me aceita nem mesmo entre seus amigos, eu quero é que você se exploda! Quero que você faleça! E que você desencarne no habitat do chifruudo, e no dendê da desgraça você seja o conteúdo.

No vatapá do Cão... No acarajé do Capeta... No vatapá do Cão... No acarajé do Capeta... No vatapá do Cão... No acarajé do Capeta... No vatapá do Cão... No acarajé do Capeta...

E já que você me humilha dizendo que eu sou um fraco, desejo um cancer maligno bem no meio do seu saco. Que o rabudo te tempere, e te corte em pedacinhos, amacie a tua carne e te enfie uns palitinhos!

 No churrasco do Cão... Com a cerveja do Capeta... No churrasco do Cão... Com a cerveja do Capeta... No churrasco do Cão... Com a cerveja do Capeta...


Paulo Dagomé

HurricAnne

Sakuro Aoyama

Agora senta aí, que quero falar. Já passei tempo demais tentando ironizar e ignorar esse teu comportamento que não entendo hoje e nunca entenderei. Quer saber o que tenho pra te dizer? Aí vai: CHEGA! Estou farto de ter que te ouvir sendo falsa e vítima de tudo o que você mesma cria. Cresça! Já não tem quem fique tentando consertar teus erros, e isso também me inclui no pacote. Estou definitivamente decidido à não ter dúvidas sobre você.

Teus olhos cínicos brilham toda vez que me veem afundando em ti. Tua boca foi feita para engolir o pequeno sorriso que carrego. É quase impossível acreditar que o que você acha bom em mim, é o fato de eu ter você. Diz estar decepcionada e triste com minhas atitudes tão leviano com você. Mas você me fez assim. Gerou e me criou para que um dia trocássemos golpes. Agora, não reclame se farei isso.

Cansei de teu ar reprovador, tua insegurança exarcebada, teus joguinhos juvenis de "eu não sou mais sua amiga", de teu ego com pinta de superioridade. Eu rejeito qualquer falsa expressão de afeto que venha de você, filha do cão! Canto para ti, Vatapá como se fosse feita para você. Eu quero distância de teu perfume e não quero tua comida. Não há graça e nem ternura em teu colo.

A partir de hoje te chamarei pelo nome e nunca mais deixarei eu passar noites em claro pensando no por quê de ter que conquistar o teu amor, algo que deveria vir gratuíto e incluso na caixa. Agora sou eu que queria ter sido o teu aborto. Eu que quero não ter saído de ti. Me emancipo de tua presença, teus credos e teu tão imaculado caráter.

Hoje eu assumo todas as culpas para teu bel-prazer. Deixo-te até pensar que sou feliz com tua presença, enquanto, hoje sim, desejo a morte a ter que te ouvir mais uma vez. Cabeça tele-guiada e alienada de si mesma. Acabou os dias em que você afasta de mim todos os meus amores. Hoje eu só amo o que você nunca vai amar ou amou na vida: EU MESMO.

Ele

- Faz um tempo que não nos sentamos para conversar, mas hoje não quero falar delas que sou eu. Hoje quero falar dele que são eles, então, puxe uma cadeira e vamos nos sentar. A conversa é longa e já é tarde. Eu te empresto um short para você ficar... Como dizia, hoje vou me prestar ao papel de falar dele. É definitavamente encantador. Como uma fera. O nome dele é desnecessário para a conversa, mas quando me referir a ele, e farei isso muitas vezes, você vai entender de quem estamos falando.
 Ele tinha lábios avermelhados e olhos de caçador. Todas as mulheres eram alvos e nenhuma delas era o centro de seu coração. Com algumas passou muito tempo, com outras as poucas horas que demorava para que ela se entregasse ferozmente na cama. Com outras, ainda passa algum tempo, em pensamento.
 O ouvido aguçado, podia perceber a risada de sua próxima vítima a quilômetros. Já sabia ele o que dizer para tê-la na mão. Como quem nada queria, como quem nada sabia... impregnando-se como um fungo na pele delas, ele ia se escondendo atrás desses ultrajes. Deixando mulheres loucas e frágeis, ouvindo tudo o que elas tinham a dizer e as matando de curiosidade. Deixando as coisas desamarradas, deixando pegadas por onde passou.
 Mas ainda me lembro do dia em que ele dançou só. Lembro de sua queda, como se assistisse ela de um prédio ao lado. Chegara uma nova moça na redondeza e todos temiam pelo seu passado. Seus cabelos eram a moldura perfeita para esconder o que havia por trás de máscaras de outros carnavais que ela veio. Uma pele que lembrava porcelana e no seu ventre, fogo. Seu andar e seu falar era, o que se pode chamar de charmoso. O corpo adolescente e a boca convidativa, feita perfeitamente para aquele corpo. Olhos amendoados que se responsabilizavam sempre em estar delineados. Que não se engane, ela não era bonita, mas acabava prendendo a atenção de todos os machos da espécie e assim, os comentários das fêmeas. Óculos para fim de tarde, shorts jeans à noite, all star. Era o que ela precisava para que mais nenhuma entrasse em seu território.
 Ele, como os demais, deixou o queixo cair. Enquanto pensava se era ou não era, enquanto o seu eu o puxava para si e ele apenas seguia os passos dela. Os seus amigos riam descontroladamente da garota que parecia ser a vítima de tal crime. "Ele não ficará por muito tempo enjaulado. Um leão, um coelho, nasce para um único propósito: o mundo." 
 Porém, com o tempo, as cordas de seu violão já não tocara mais as músicas que costumava tocar. Distorciam-se, bendiavam-se, ao tom que era ditado por ela. As palavras escritas, diziam ao pé do ouvido dele, que algo estava errado com ele mesmo. Ele perdeu seu violão e sua mente. O álcool parecia já não ter muito sentido para o que ele queria. No ápice de sua loucura encaminhada, ela acena tchau.
 Seu estômago se desencadeia e se tranca. Não há comida que entre, nem água que pare, nem substrato que saia. O seu corpo parece depender de algo que sua alma repugna. Ela o visita e o deixa novamente. Apaga as luzes, fecha as portas. Eu vi aquele homem se tornar um garoto nas mãos pequenas daquela moça. Mal tinha ela chegado, parecia sempre estar de partida. Mas sempre ficava.
 Eles dividiam o mesmo lençol e cigarro. Mas estavam anos-luz de distância de si mesmos. Eu pensei que aquela loucura toda acabaria colocando-o em choque, e ao olhá-lo hoje eu tenho certeza disso. O seu talento dominado por ela. Seu corpo sujeito ao perfume das pernas dela. O gosto dela era o que matava a sede e na sua cama que os melhores sonhos voltavam a cabeça dele. Satisfazê-la era o primeiro pensamento dele ao acordar. Olhava ele para o lado, sentia o cheiro de suas pernas, via seus pequenos seios arrepiados de frio, e só queria que a sua alma aceitasse o seu corpo.  Os sonhos dele já era olhar as costas dela em sua barriga. Seu cobertor eram seus braços. O que lhe afaga são seus cabelos. Esperar que ela chegue. Esperar que ela fique. Creio que ele jamais poderá ser como antes era. Ela o domou muito bem. Fez dele gato e altar.
 Mas parece que o azar rir para esse cara. Já não bastasse o seu passado, o medo, a insegurança e todas as outras correntes que o prendem ao chão, agora terá de lidar com a ausência de tal moça. Ela se foi e levou com ela, guardado em caixas, sua fraqueza. Agora ele traz no rosto as olheiras de noites mal dormidas, um estômago vazio e o corpo fraco. Sua cama parece o Pacífico mais agitado que nunca. Seus dias correm sem sentido para lugar nenhum e a parte mais doída é não vê-la de manhã. Já não tem mais pés tamanho 34, descalços e sustentado pela ponta andando pela casa. Suas camisas não a vestem mais. Seu suor é único e exclusivo seu, não dela. O perfume não inunda a casa. Ele está seco. Esperando os Carnavais para vê-la.

Be the same.


Te conto segredos com os olhos e te levo pra sentar no meu recinto. Abro a garrafa de cerveja e encho teu copo. Meu prazer está na tua embriaguez. Abro teus olhos e me coloco em tuas mãos despida do medo e da frieza. Descarto cartas de um baralho cigano que me prende no chão, pra que tu tenhas total liberdade.
Ando à cavalo, corro entre corredores, subo e desço escadas para teu prazer. Enche-me então com relógios e me obriga apenas à esperar, esperar e esperar aos soluços.
Não há razão, pé ou cabeça. Não tenho motivos para esperar o teu "adeus" se já não me deixas habitar em ti. Não é necessário que me diga "hoje eu quero sair só" para que eu não esteja contigo. Há muito tens se esvaído de mim. Há muito, tens deixado meu coração para entrar e sair de meu corpo. Há tanto, espero que você venha e fique.
Me levo até ti. Ando milhas e não descansas meu pés. Corro descalço entre pedras e espinhos e teu sorriso não me recepciona. Grito teu nome. Tu me ouves e não me vê. Olha as coisas como estão. São de fato assim? Essa é a verdade que nos propomos a agarrar? Ainda bate o teu coração?
Tu não me soltas e nem me enlaça. Tu me deita e não me coloca em teu seio. Há tempos que não vejo tuas uvas gordas. Te trago flores e tu as amassa no bolso. Arranco minhas entranhas e as coloco em teus dedos e tu as solta no chão. Tapete é o meu peito pra ti.
Coloquei uma ancora em meu pescoço para não sair de teu mar. E quando já desfalecido e cansado entre o ar e água nos pulmões está meu corpo, tu só me pedes para esperar.

É tudo mentira

Eu quero acordar ao teu lado e te matar às 18 horas.
Quero te beijar em meio às tempestades e amarrar tuas tripas na porta.
Quero ser tua e te lançar aos leões famintos.
Quero abraçar tuas costas e nunca mais ter que olhar para teu rosto.

Quero amar-te infinitamente e te ver secando à luz do Sol.
Eu vou secar tua sede e atirar em teu peito.
Quero transar com você durante todo o dia e não te ver por uma vida.
Quero abraçar tuas costas e nunca mais ter que beijar teus lábios.

Vou arranhar tuas costelas de tanto tesão e cortar teu pescoço pelo rancor.
Vou chorar quando você partir e me alegrar quando você não voltar mais.
Quero secar minha sede em teu templo e te fazer comer areia pelo resto dos teus dias.
Quero abraçar tuas costas e nunca mais ter que ouvir tuas mentiras.

É tudo mentira baby.
O verde, o vermelho e o verão.
É tudo mentira baby.
Nunca houve verdade nisso.
É tudo mentira... E é tudo.

flamedua

 

 Estou indo embora para um quarto cheio de espelhos. Imagino que voce deve saber do que estou falando. Exatamente isso, estou indo realizar o seu desejo. Você me deu a música que eu precisava e em troca disso, pegou meu corpo para teu bel-prazer. Hoje eu estou indo para a sala cheia de espelhos e eu te encontrarei lá.
  Você definitivamente não resiste a mim. É como se eu fosse para você, o bife mais suculento do menu. Então, você me pede e me espera ansiosamente. Eu então sou servida em uma bandeja de prata, e você vorazmente, rasga minha carne em teus dentes, mastigando minh'alma lentamente, me misturando a tua saliva, me engolindo cautelosamente, enquanto lava teu paladar com vinho.
  Estou indo embora e como se sabe, não há volta. Não há quem conheça o que se tem depois da ponte, não há quem saiba como se passar por ela tranqüilamente. Estou indo pra lá. Talvez de lá, possa lhe dizer algumas coisas cara a cara.
  Você realmente não resiste a mim. Me sinto sendo tua presa. Você me olha de longe por entre os pés-de-algodão (que estão altos), com teus olhos amarelos, cerca-me sutilmente, e quando vejo você, está em cima de mim com teus dentes cerrados em minha pele, olhando me nos olhos e rasgando o meu corpo, as minhas costas. Me joga então pela boca no chão, e de meu ser tira a paz. Persegue meu cheiro e meu sabor, tornando-se um caçador de sua própria morte.
  Estou indo embora e não vou de trem. A estrada deve ser caminhada lentamente. Os caminhos parecem ser muitos, mas nada mais é que um emaranhado de caminhos que formam um teia, e todas no levam para o centro do alvo. De lá, talvez seja mais difícil ser atingida pelos dardos que estão jogando aqui, talvez eu esteja por perto.
  Você naturalmente não resiste a mim. Você passa por mim e me joga mentiras. Olha nos meus olhos com teus olhos vermelhos e me tempera ao teu gosto. Joga verdades e se esconde. Impenetrável és tu! Uma rocha afundada em tamanhas mágoas que nem você mesmo sabe onde se encontra teu espírito. E meu corpo se aprisiona a você, como se fosse mais um membro de tua anatomia. Ora me corta, ora me usa, ora precisa de mim, ora me quer. Sou teu baço. De tudo o que você tem, sou o que te deixa mais humano.
  Estou indo embora e vou agora. Me esconderei no recôndito de meu pai e no braço de minha mãe descansarei minha cabeça. O que meus olhos viram, aos poucos vai ser deixado para trás. A tua silhueta na porta será apenas mais um borrão de minha cabeça. Não haverá imagem que me lembrará você, ou perfume, ou tempo, ou canção.
  Você certamente não resiste a mim. Sou teu medo maior e teu maior sonho. Sou o que te levanta nas madrugadas secando tua garganta. Puxo teu ar e massageio os teus pulmões. Te dou a juventude que você perdeu, assim como eu tenho perdido a minha. Vendo teu corpo a prestação. Te passo de mão em mão e sorrio pra você. Você não resiste a mim. Você não teme a mim. Você é o meu espelho.

Vestido Vermelho

 Velho sentado em uma poltrona grande e bem acolchoada marrom. De couro envelhecido, em um escritório de muito bom gosto. As paredes cobertas de um papel de parede com um padrão de desenhos lineares. Tudo bem organizado. Ele não olha em direção a "câmera", olha aproximadamente 39º à esquerda da mesma. Um meio perfil bem iluminado pelas janelas abertas e sem cortinas. Janelas grandes de vidros pequenos. Ele fala:

- Ela era nova, bem nova quando chegou. Por muitos anos eu atendi pacientes que tinham problemas na família, em relacionamentos, com eles mesmos. Ela não me contou nada e me disse tudo. Ela fez com que eu visse meus problemas.

 Em um corte de cena, aparece então o mesmo escritório em algum tempo atrás. O velho, um pouco menos velho. Algumas coisas em diferentes lugares. Ouve-se apenas o barulho de um pequeno relógio de mesa e quando os ponteiros marcam 07h32minh, o velho diz:

- Fale-me um pouco sobre você.

 "Câmera" nela, nas mãos dela. Unhas sem esmalte, bem cuidadas. Sem anéis. No pulso, uma fita preta de cetim. Veste-se de preto da mesma forma. Mãos sobre a barriga. Foco nas mãos. Apenas nas mãos e nos seus pés, que calçam uma sapatilha sem salto roxa de algum tecido semi-felpudo. Ela diz:

 - É normal que eu só tenha perguntas?

 Foco na caderneta de anotações do velho, em suas mãos velhas, na sua caneta dourada.

 - Sinta-se a vontade para conversar como quiser.

 Uma longa seqüência de olhos, bocas, cabelos, mãos, pés, dela. No rosto, nenhum foco. Preserve o rosto dela.

- Por que me sinto cansada? É normal se sentir cansada se não se faz muita coisa? De onde vem a falta de coragem? Seria medo a falta de coragem? Ou medo é a "falta de coragem" mais evoluída?

 A sobrancelha do velho salta por trás das lentes dos óculos.

- Não seria outra coisa que ainda não é medo? É um problema ou uma virtude que tenho? Sentir-me cansada é a certeza que vivi muito? Sentir-me cansada é a certeza de que já não vou viver tanto? E pelo o quê eu vou viver? Ainda existe em mim algo grande, forte e intenso para que me impulsione a viver?

 O velho se remexe na cadeira, olha para sua caderneta e diz em um tom profissional.

- Algo assim não é o amor? Você é muito jovem, deveria está apaixonada.

 Flashes de imagens de seus ex-amores passam rapidamente, e apertando os dedos uns contra os outros ela diz:

- Acha mesmo que o que me falta é amor? Como poderei sentir-me amada? E o que isso tem com a minha falta de coragem? E o que a falta de coragem tem com o meu cansaço?

 Ele sorrir sarcasticamente. Foco em seus lábios recessiquidos.

- Deve ser mesmo difícil amar alguém com tantas perguntas.

 Flashes de imagens de seus ex-amores dizendo que a amava.

- Você ainda acha que vale a pena acreditar que exista o amor? Mesmo que você caia mil vezes por ele? Mesmo que depois de algumas quedas o vôo não vale tanto a pena?

 Ele a olha, pela primeira vez durante o tempo que estão juntos.

- Aconteceu algo com você?

 Ela se senta repentinamente, ainda não há foco em seu rosto, apenas em seu cabelo e na sua silhueta.

- E o que aconteceu comigo justifica eu fugir do que pode acontecer? É um pecado não perdoar? E se for, qual o preço que pago pela não-confiança? Há de fato algum motivo para que eu não confie?

 Ele a olha, e ela parece delirar. Olha para um ponto fixo no centro do nada, enquanto se pergunta compulsivamente, enquanto correm pelos cabelos, braços e pernas, suas mãos levemente tencionadas.

- E qual o motivo de dizer não? Por que meu coração perde o ritmo quando perco a visão? Por que dormir não me descansa? Que sabor tem a música? Por que não sai da minha cabeça? Por que não vai embora como eles foram? Por que as coisas não passam? O que é preciso para apagar?...
-TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM

 Ela é interrompida pelo despertador que diz que a consulta acabou. O riff da música se inicia neste ponto. Ela sai pelas ruas desnorteada, a "câmera" meio que foca e desfoca, aproxima e distância, vai e volta, mas ainda não foca seu rosto. Nunca se deve focar o rosto. Há flashes de um ex-amor em especifico. Flashes de dias bons, de sexo, de brigas, de discussões, de silenciosas discussões, de despedidas, de chegadas, cenas engraçadas, cenas estranhas, cena de seu ultimo adeus. Ela olha na vitrine o vestido. Mostra então ela com o vestido. O prédio então aparece, ainda com a "câmera" focada e desfocada. Ela sobre e os flashes agora são mais rápidos. Ela sobe até o terraço.
Volta para a cena inicial onde o velho está sentado. Sentado olhando para a janela. Da janela cai algo rapidamente. Mostra-a no chão.


"Vestiu-se de vermelho
Sem amigos pra contar falsas verdades
Caiu sem ter medo
Como é que os novos dias serão fáceis
Sorriu enfim
No fim saiu dali."

Recusa


Do que fui,
nada sou...
Do amor que vivemos
nada restou.

Na solidão deste exílio
imploro a sorte para te buscar
porém nem em sonho vens
quanto mais quero te ver
mais longe tu estás.

Nada de ti eu tenho que possa recordar,
até minha mente recusa
de onde tiveres te buscar
Meus olhos vazios não choram
meu cérebro cansado recusa em ti pensar
A garganta ressequida não lhe chama
o coração magoado mais uma vez te amar.

O amor que tive por você foi puro, foi belo
cada vez que te via, mais forte se tornava nosso elo.

A sua recusa deixou-me vazio, e por muito mais sem minha paz.
Já que você não me quis, não vou te querer jamais.


Agnaldo de Paula
Meu avô

50 anos com ela.



Desabotoe minha camisa. Corra as mãos sob ela em direção aos meus ombros e a desça até meus punhos. Me faça sorrir com isso. Olhe nos meus olhos com os teus, daquela forma quando você olha dentro da minha alma e me vê, como ninguém vê. Tire ela de mim.
Me abrace. Corra tuas mãos nas minhas costas e pare no meu sutian. Com graça, o arranque de mim. Puxe meu corpo para o teu e entrelace teus dedos no meu cabelo, como temos feito por tantos dias. Me olhe nos olhos. Tire ele de mim.
Me beije. Cale a minha boca com tua língua. Sugue minh'alma por ela. Corra as mãos até minha cintura. Sinta o calor que passa de ti para o meu ser. Seja meu dono. Leve meu corpo ao teu caminho. Leve minha pele para a tua. Faça de mim tua tatuagem. Desça sua mão e tire meu short. Desça o pelas minhas coxas e canelas. Suba com tuas mãos quentes redesenhando meu formato. Aperte-me. Tire ele de mim.
Fique mais um pouco. Dê me asas. Rasgue minhas costas e dê-me o fôlego. Tire-me o fôlego. Diga aquelas palavras mais uma vez. Faça-me senti-las. Eu quero. Tire de mim o que resta e erga sobre meu corpo o teu templo. Fique mais um pouco.
Deite comigo, meu senhor. Faça rimas com músicas para eu cantar. Sorria e me cubra com teu corpo. Há quanto tempo não fazemos isso? Por quanto tempo faremos isso? Responda minhas incertezas com beijos. Acompanhe meu medo até a porta. Certifique-se de colocar uma vassoura atrás da porta. Seja meu. Seja meu dono. Tire ele de mim.
Esqueça o tic-tac do relógio. Ele nos apressa e eu quero tempo. Quero parar o tempo. Tuas costas quentes me esquentarão à noite. Tua boca mata minha sede. Tua música cura minha dor. Teu cheiro mata minha fome. Teu seio é minha casa agora. Meu seio é teu lar. Leve teu medo até a porta. Tire-o de ti.

Sem título




  Todos os dias quando ela acordava, esticava-se ainda na cama. Nua, como dormia, andava pelo seu quarto tentando juntar os pedaços da noite passada. Via por todos os lados sapatos. Ela morava só em um pequeno apartamento. Todos os cômodos seguiam o mesmo padrão de cor: carvalho. Móveis claros, parede clara, muitas janelas. Em cada cômodo, dos três, havia sapatos. Espalhados pelo chão que seguiam o tom dos móveis, alguns em cima dos móveis, outros enfileirados. Era notável a quantidade de sapatos para quem tinha apenas dois pés.

  Ela colocava um roupão de tecido leve que batia mais ou menos no meio de sua coxa. Colocava chinelas de borracha, dessas que vemos nas propagandas, colocava água na cafeteira. Ia para o banho e lá passava 30 minutos sem se mover embaixo do chuveiro. Seus cabelos molhados cobriam suas costas. Os cílios grandes aparavam gotículas de água. Uma pele branca. Cabelos tão claros quanto escuros. A luz do banheiro era a de mil sóis, e só deles vinha luz. Porta aberta. Chão molhado.

  Sai ela do banho sem toalha e secando seus cabelos com uma toalha de rosto. Dentes escovados, cabelos desembaraçados, nua. Ela coloca o mesmo roupão de fino tecido, e vai até a cozinha pegar seu café. Enche uma xícara que beira a semelhança de uma caneca. Senta-se próximo à janela da sala. O dia está começando a acordar. Ela já está acordada há dias. Por uma grande placa de vidro esverdeado ela ver a cidade começando sua dança. O céu que escorre pelo asfalto fede a morte. Ela olha para o céu que está com um azul enegrecido e nuances púrpuras. Sentada na sua cadeira ela se recorda das palavras de um velho trovador, proferidas poderosamente há nove anos atrás. Ela espera que suas palavras se tornem realidade enquanto está olhando apenas pela janela.

  Então os céus arregimentam uma grande tempestade. As cores que estavam tão escuras se fecham no cinza mais escuro que já se viu. Ela da cadeira, levanta seu olhar e enruguesse a testa como se buscasse respostas nas nuvens. Cogita a possibilidade de entender o que o maldito trovador disse há anos. Então espera silenciosamente, como se os raios fossem as trombetas de algo que está perto. O inicio de um ritual. Precipita então do céu a chuva mais leve que houve relato. As pessoas da rua nem mesmo percebem o que acontece. A placa de vidro está lavrada de gotas de chuva.

  Ela toca o vidro ainda em busca de respostas. Ela continua a esperar e a chuva vai embora. O despertador toca. Ela sai para trabalhar na escola que conseguiu fundar com ajuda da mãe e da sua madrinha rica. Todos os dias ela vai à escola e toca algumas músicas que fez quando mais nova, lê com os alunos... Dança. Ela sorrir tanto que dá agonia. Seu cabelo está tão grande como nunca esteve. Seu corpo continua o mesmo. A imagem do céu em águas ainda não saiu da sua cabeça, assim como tais palavras. Ela vai pra rua, bebe e sorrir mais um pouco. Volta pra casa.

  Todos os dias quando ela acorda, estica-se ainda na cama. Nua, como costuma dormir, ela fica tentando juntar os pedaços da noite passada, em busca da resposta da pergunta que ele fez, antes de entrar no trem.

Invictus



Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

William Henley

The end was always closer


Queime trimensalmente as cartas que você escreveu e não mandou. Jogue seu celular em uma pia cheia de água e não anote os antigos números na sua agenda. Tire do seu guarda-roupa as roupas que você não usa há 1 mês. Se em 1 mês você não a usou, não usará nunca mais. Corte seu cabelo daquela forma que você não gostava há 5 anos atrás. Fique em silêncio por uma hora. Se sente de frete ao Sol até que sua pele esteja perfeitamente aquecida. Vá para auto-estrada e ultrapasse o 7 do painel do carro. Ligue o som o mais alto que puder. Pule na sua cama. Compre para as crianças mais próximas pistolas aquáticas. Brinque com elas. Aproveite a chuva para fazer uma leve caminhada. Pinte seu quarto. Encha o copo da sua bebida favorita e ofereça a alguém. Escolha uma pessoa para contar a verdade sobre si mesmo. Observe tudo o que te assusta e reúna-os em você. Se vista de palhaço se for preciso. Depile suas pernas com cera quente. Não se engane com você mesmo. Ame-se. Faça um vestido e dê de presente para alguém. Certifique-se antes que irá caber na pessoa. Saia com seus melhores amigos. Escolha um melhor amigo para pegar a estrada com você, desde que a música do rádio seja a única coisa que vai falar. Passe 1 mês sem usar sua droga favorita. Corra muito. Há quem diga que é recompensador ultrapassar os seus próprios limites. Não se preocupe com problemas, nem se surpreenda com eles. Problemas lhe acompanharão até a morte. Pra ser sincero, a morte é o menor de seus problemas. Converse com um estranho sobre o que você mais gosta. Invente histórias. Seja lunático. Roube algo desinteressante. As pessoas estão sempre roubando. Cuide de sua casa. Mantenha-na pura e clara. Pinte seu cabelo. Use uma maquiagem diferente. Liberte-se de seus preconceitos. Seja aquilo que você olha torto na rua por um dia. Ouça a música que você não gosta. Fique uma noite sem dormir para ver o nascer do Sol, é uma maravilha. De vez em quando, fuja da sua casa. Fique novamente em silêncio. Procure seus cadernos antigos. Tire um dia para tirar fotos diferentes. Procure aquilo que ninguém viu. Grave um vídeo de uma loucura. Tome banho de mangueira. Jogue futebol e ande de patins. Deixe seus cabelos sujos por alguns dias. Deixe sua barba crescer. Escove os dentes. Tome um banho gelado. Mastigue gelo durante o dia. Aprenda uma nova receita. Diga o que quiser. O que quiser, quando quiser. Não tenha medo. Não tema o futuro. Esqueça o seu passado. Aprenda a perdoar para ser perdoado. O que aconteceu nunca mais acontecerá. Não se tranque. Abra-se, tem um mundo enorme lá fora esperando por você. Volte a fazer o que você costumava fazer. Não se acanhe com os "nãos" que surgiram na estrada. A vida é mais "não" que "sim". Queira ter filhos. Nada que disseram de você é verdade, só aquilo que você acredita que é. A sua maior arma é sua voz. Use-a. Não discuta com pessoas levianas. Não se abra para pessoas que parecem confiáveis. Seja algumas vezes desonesto. Seja algumas vezes mau. Seja algumas vezes perverso. Seja também honesto, confiável, bom e gentil. Tenha grandes sonhos. Aprenda a sonhar novamente. Não se esqueça de você em nenhum segundo. Só mantenha aquilo que te faz bem por completo. O que te faz mal, mesmo que acabe com apenas 1% de sua felicidade, deixe de lado já. Ser 99% feliz não é ser feliz. É ser infeliz. A felicidade é a plenitude. Ande devagar na rua. O tempo pode calçar seus pés ou sua mente. Escolha. Não tema suas escolhas. Não julgue muito. Agir com o coração requer sabedoria. Se não tem, não faça. Levante cedo e vá caminhar. Por mais feia que seja sua cidade, o céu continua lindo.

A Saudade


Sinto falta do que havia entre nós. Era possível sentir no ar. Não perceber ou ver. Se sentia. Algo grande, forte, quente, vermelho e azul. Eu o queria tanto. Éramos nós artistas de um mesmo picadeiro. Fazíamos da noite nosso lar. Entre grandes e pequenos só havia eu e você e o que construirmos para nós. As coisas faziam sentido no meio da loucura que vivíamos. Nossa liberdade era tamanha que nos sentíamos constantemente andando em parapeitos e viadutos. O mundo era pequeno para nossos pés. Nos beijos, colocávamos ali as palavras que escapavam pela língua. Nos risos, colocávamos a satisfação de sermos o que éramos. Nos dias difíceis, deixávamos claro o que poderia fazer nos separar. Dia após dia, esperando que o tempo desse a ordem, esperávamos pelo futuro que nunca nos chegou às mãos.

Mas com o passar do tempo, os risos já não mostravam nada. Os beijos não se chamavam. Os dias difíceis nos visitavam sem antes telefonar. O passado assombrava-nos na noite que um dia foi nossa. O canto e o violão pareciam desentoados e a música já tinha ido embora de mala e cuia. Nos deixávamos atordoados e confusos com a dúvida criada por nós. Eu via erros em você e em mim só havia o descaso. O peso de não confiar nos guiavam para pontes que já tinham sido queimadas. O seu ego tripudia em mim. Minha ignorância te olha ironicamente. O cinismo nos servia na cama. Os caminhos trilham para o desencontro. Gritos e noites separadas. Lágrimas com teor de álcool de 78% molhavam nossas roupas. Sentíamos as mesmas dores, e estas, eram criadas por nós mesmos.

Aos pouquinhos, aos pequenos pedaços, não vimos mais um motivo para sermos o que éramos antes. O que havia no ar foi extinto e a razão é desconhecida por todos. O que nos resta são mais anos e anos nos arrependendo do que poderia ter sido algo fértil. O sexo estava morto e o nosso negro amor também. Morremos em pequenas doses, em meio os sorrisos que já não se faziam presentes. Como amantes predestinados à morte antes do amor. Como histórias do século XII. Como romances de Carnaval. Como romances que acabam quando todos os confetes estão no chão.O que havia entre nós, agora é como um fantasma de algo que nunca fomos por completo. Se foi. Só nos restou a saudade. E isso é uma loucura... tchurutchutchutchu...

As rosas não falam


  Ela foi encontrada sentada numa praça, debaixo de um pé de planta. É estranho como aquela árvore estava enorme. Enorme. Ele a viu ali sentada e como outrora, sentiu o que ela sentiu. Ela então o olhou nos olhos e ele desconcertado se aproximou. Como de costume, ele falou algumas mentiras depois de beijar-lhe a mão. Ele entendia completamente o que ela falava e sabia das mentiras que ela contava. Mas tudo bem, tudo estava bem. Ele estava com a roupa mais bonita. Ela estava com a roupa de sempre. Era carnaval e todos estavam preparados para aquela noite. Ele então tirou do seu bolso uma máscara cor de vinho e entregou na sua mão, com um sorriso mascarado disse que era pra combinar com seus olhos.
  Ele saiu com uma preocupação arraigada em seu peito, ela ficou com a solidão que estava acostumada a lidar. Do céu, chovia confetes e pintavam o chão de concreto. Ele no meio de todos, olhava para a pequena que estava sentada embaixo da árvore que tinha estranhamente crescido. O vestido branco que era característico dela, estava molhado e com uma leve transparência. Não se sabia se o que molhou foi o orvalho da árvore ou outra coisa. Mas de certo estava encharcado.
  Como de costume, ele a tirou pra dançar. Vê-la tão quieta, era de certa forma assustador. E como de costume, desceu do céu uma chuva tão fina e tão cheia ainda... algo sobrenatural. Eles valsavam a mesma música a cerca de um ano, sabendo que mortos estavam por isso. Todos paravam para os olhar dançando fora do ritmo. Como de costume ela deitou sua cabeça em um de seus ombros, e ele encaracolava seus cachos rúbios. Como sempre, ela estava embriagada e ele ainda era um cavalheiro. Ele notou que seu coração estava de certa forma, arritmado. Isso em geral acontecia. Chegou perto do pescoço, a abraçou forte, e dessa forma foi dito sem ninguém ouvir "Just Breath". A apertando contra si, ele entendeu o que estava acontecendo e ela também. Ele perguntou tranquilamente:

"Minha menina, o que há com você? Que marcas são essas em teu corpo? O que fizeram aos teus olhos? Onde está tua companhia e pra onde teus pés caminham? O que houve com tua voz, meu rouxinol? Onde está o teu vermelho? Me fale sobre teu vestido branco, como ele ficou assim. Por que não me disse o que estava acontecendo com você?"

  Como de costume, ela sorriu para ele e disse que estava bem. Naquele momento, tanto aquela donzela sem alguma reputação ou valor, quanto aquele boêmio de boa família, entenderam que era mais que um adeus. Era a canção de um funeral. Eles então deixaram morrer um no colo do outro.

Apague a luz


  As músicas estavam tocando alto. Havia tanta lama no chão quanto na Woodstock de mil novecentos e sessenta e nove. As músicas falavam sobre juventude, liberdade e amor. Eu era jovem e estávamos brincando em meio a multidão. As luzes entravam em nossos olhos partindo nossa pupila ao meio. A música era cortante e as risadas se tornavam espontâneas.
  Parecia já antes preparado, quando eu seguia o próprio Diabo em busca da minha própria morte. Eu via uns dançando, outros se embriagando. Eu estava sóbria mas me sentia entorpecida. O mundo girava tão lentamente. O amor nos fazia graças. Era a mais solene canção tocada para aquele punhado de gente.
  Mas naquela noite, o mal foi disseminado naquele descampado. A covardia deu lugar a todas boas daquele lugar, deixando aquele ar pesado demais para que eu pudesse respirar. Meu corpo saiu de minh'alma e o meu espírito estava longe. Deus olhava para mim como um dia olhou para seu filho Jesus na cruz.
  Eu me dilacerava em solidão, entre milhares de pessoas que nos olhavam na valsa da morte. Suas mãos encravadas em minha cintura fazia meu coração ter sopros como a pequena Hurricane. As palavras gritadas eram como pequenos tiros de uma espingarda calibre doze em meu ventre. Olhos de rapariga me observavam de longe enquanto os eu tentava me esconder quando aquelas mãos feriam as minhas. O álcool era o combustível da noite infernal.
  Quando a música acabou, apagaram as luzes. O que parecia o fim, foi apenas mais uma elaboração de planos. Como era de costume se dizer.

Atrasada!

Modifiquei.

Houve então um dia em que saíram todos para brincar em um grande parque. Haviam pessoas por todos os lados e as vezes parecia que "Deus" tinha fechado os olhos para a humanidade. Turistas de outra estação nos observavam através das nuvens. A noite estava no seu início. Molhados até o joelho pelo capim do jardim, avistou-se um coelho que caminhava lentamente. Mãos no bolso, olhar distante. Con-cen-tra-ção.


"Não havia nada de tão notável nisso; nem Alice achou tão
estranho ouvir o Coelho murmurar para si mesmo, 'Ai, meu
Deus! Ai, meu Deus! Estou muito atrasado!' (quando pensou
nisso, bem mais tarde, ocorreu-lhe que deveria ter estranhado;
porém, naquele momento, tudo lhe pareceu perfeitamente
natural). Mas quando o Coelho tirou um relógio do bolso do
colete, deu uma olhada nele e acelerou o passo, Alice ergueu-se,
porque lhe passou pela cabeça que nunca em sua vida tinha visto
um coelho de colete e muito menos com relógio dentro do bolso.
Então, ardendo de curiosidade, ela correu atrás dele campo
afora, chegando justamente a tempo de vê-lo sumir numa grande
toca sob a cerca.
No instante seguinte, Alice entrou na toca atrás dele, sem
ao menos pensar em como é que iria sair dali depois.
A toca do coelho, no começo, alongava-se como um túnel,
mas de repente abria-se como um poço, tão de repente que Alice
não teve um segundo sequer para pensar em parar, antes de se
ver caindo no que parecia ser um buraco muito fundo."

O dia do Capeta



Quero comer tuas mentiras no café da manhã acompanhado de cachaça.
Transar sem camisinha com teu silêncio.
Beijar tua ausência quando ela chegar.
Quero discutir com tua preguiça e pegar um cineminha com sua indecisão.

No almoço, vou temperar tua cegueira com pimenta e salgar tua malícia.
Tudo isso banhado no azeite que corre do teu rancor.

Quero nadar de tarde nas tuas mágoas.
Ver o por do Sol com teu cinismo.
Abraçar forte tua frieza e contar piadas com teu medo.

De noite quando a Lua fizesse cena, eu arrumaria uma cama para teu egoísmo.
Com lençóis de cetim, forraria o travesseiro do seu desafeto.
Dá um beijo na testa da tua ambição.
Sentar-me numa poltrona ao lado de tua cama, com a mesma cachaça, esperando que tua infidelidade feche os olhos.

Asa Pequena


Então você achou que tudo estaria fácil para nós dois?
Baby, você sabe que caminhamos sempre em círculos.
Há alguma coisa ainda não resolvida para nós.
Bem, você me pergunta o que é preciso pra eu ir embora, mas você sabe o que é, você já fez isso.
Mas ok. Eu sabia que jamais poderíamos nos ver novamente
e parece que você achou que eu ficaria lhe esperando sentado na grama que você deixou morrer.
Agora me culpa por algumas palavras que eu poupei?
Eu disse a você que tudo estava bem.
Então por que não deixar como estava?
Parece sim que eu estava melhor antes, pois até o dia em que a verdade nos impôs a conversa,
eu não tinha necessidade de você.
Você diz que eu faço você perder a cabeça. Você me faz perder a paciência.
Agora está tudo frio novamente e você me acalenta com um silêncio familiar.
As coisas eram simples quando éramos jovens.
Mas não somos velhos ainda.
Me explique esse paradoxo?
Acha que um suposto amor deve ter nos envelhecido?
Você não acha engraçado por que brigamos se ansiamos as mesmas coisas?
Eu acho. Ou pelo menos, engraçado foi a palavra que mais encaixa.
Eu e você inventamos nossa liberdade nos perdendo de si.
Eu sei que sou um pobre menino frágil. E você sabe o que é?
Até quando músicas falaram por nós dois?
Olhe pra você e me diga o que te falta.
Então vou te olhar nos olhos e dizer o que eu preciso.
Quando isso acontecer, talvez estejamos já velhos e cansados.
Não correremos mais e nem sonharemos com um futuro feito de rosquinhas mabel e café.
Talvez seja tarde demais para realizarmo-nos como amigos que sempre fomos.
Mesmo querendo, algumas vezes, nos beijarmos loucamente.
Anyway. Façamos um trato.
Pegue essas pequenas asas quebradas e aprenda a voar.
Toda a vida você esperou por isso.
Tomorrow I'gonna be by your side.

Noir



  Eles cortam nossas gargantas como se nós fôssemos flores e o nosso leite foi devorado. Quando você quer uma coisa, ela vai embora depressa demais. Tempos que você odeia, sempre parecem demorar. Mas apenas se lembre, quando você pensar que é livre, a rachadura dentro do teu maldito coração, sou eu.


Eu quero exceder a velocidade da dor por mais um dia.

Gostaria de poder dormir mas não consigo deitar em minha cama porque há uma faca para cada dia que eu te conheci. Quando você quer uma coisa, ela vai embora depressa demais. Tempos que você odeia, sempre parecem demorar mais. Mas apenas se lembre: quando você pensar que é livre, a rachadura dentro do teu maldito coração, sou eu.

Eu quero exceder a velocidade da dor por mais um dia.

Minta pra mim, chore por mim, dê para mim - Eu o faria
Deite comigo, morra comigo, dê para mim - Eu o faria

Guarde todos os seus segredos embrulhados em cabelo morto, sempre.

Minta pra mim! Chore por mim! Dê para mim!
Deite comigo! morra comigo! Dê para mim!

Espero que morramos de mãos dadas. Sempre.

Duzentos e dezenove

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Em uma sala, em algum lugar.

- Eu me lembro muito bem daquela noite. Eu sinto o cheiro daquela noite no vestido branco que eu usava. Os cigarros tinham acabado e o vinho também. Ele então pegou as malas, o violão e se foi...

- O que você sentiu?

- ... Querido, não me interrompa. O que eu estou pra lhe dizer você nunca ouviu. Então guarde a caneta e o papel e escute com atenção.
   Ele tinha alguns trocados no bolso, estes suficientes para ele ir embora. Eu sabia que ele precisava ir, mas não queria que fosse. Você já soube o que é precisar de algo e não poder querer?...

- Aan...

- Baby, é algo que te corrói por dentro. Deixa você com arritmia e te envelhece. Se o vinho soubesse o que é amor, envelheceria muito facilmente, mas seu sabor seria muito amargo... (Trago no cigarro). É por isso que a casa é constantemente escura e vazia. Meus móveis e a "luz" se foram com ele. Eu entendo que isso tudo talvez seja muito pra você entender, talvez eu não esteja usando as palavras certas, mas baby, quem pode explicar um coração partido?
(Um gole de vinho)
  Marca meu caro. Marcou meu corpo. A data e a forma em que aconteceu. Ele foi chamado pelo blues e se foi. O blues é meu romance-noir. Eu o amo, mas ele me tirou o que mais amava. É como um homem viril que crava as unhas nas coxas brancas de sua fêmea e não a beija. Ou como o homem que só beija sua mulher uma vez.

- Me fale sobre a despedida.

- Eu... bem... (trago no cigarro, olhando pela janela). Eu estava na sala. Ele saiu do quarto, me olhou nos olhos, passou a mão no meu rosto e o polegar na minha boca. Naquele instante, senti que estava perdendo algo. Senti isso muito intensamente. Ele me olhou como se estivesse falando comigo, mas em silêncio. Aquele pequeno instante pareceu enorme. Vi nossas vidas passando em minha frente. Eu segurei sua mão e o abracei. Ele apertou sua mão nas minhas costas.
   Eu o soltei e de olhos fechados abri a porta. Ele deu um meio sorriso como costumava dar e me perguntou com um ar humorístico: "Quer me ver indo não?". Eu ainda de olhos fechados sorri. Ele veio perto de mim e meu corpo tremia, sem parar. Sussurrou nosso segredo, passou a barba em meu rosto e se foi. Eu fechei a porta e só conseguia ouvir o tic-tac do relógio que ganhei de presente da minha mãe. Eu ouvi ele por umas 1500 vezes e eu corri para a estação. Vi ele entrando no trem, pra longe de mim.

(Sorrindo)


"Quando um homem recebe blues, Senhor, ele pega um trem e passeia
Quando um homem recebe o blues, Senhor, ele pega um trem e passeia
Mas quando uma mulher recebe o blues, querido, ela abaixa a cabeça e ela chora"