Duzentos e dezenove

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Em uma sala, em algum lugar.

- Eu me lembro muito bem daquela noite. Eu sinto o cheiro daquela noite no vestido branco que eu usava. Os cigarros tinham acabado e o vinho também. Ele então pegou as malas, o violão e se foi...

- O que você sentiu?

- ... Querido, não me interrompa. O que eu estou pra lhe dizer você nunca ouviu. Então guarde a caneta e o papel e escute com atenção.
   Ele tinha alguns trocados no bolso, estes suficientes para ele ir embora. Eu sabia que ele precisava ir, mas não queria que fosse. Você já soube o que é precisar de algo e não poder querer?...

- Aan...

- Baby, é algo que te corrói por dentro. Deixa você com arritmia e te envelhece. Se o vinho soubesse o que é amor, envelheceria muito facilmente, mas seu sabor seria muito amargo... (Trago no cigarro). É por isso que a casa é constantemente escura e vazia. Meus móveis e a "luz" se foram com ele. Eu entendo que isso tudo talvez seja muito pra você entender, talvez eu não esteja usando as palavras certas, mas baby, quem pode explicar um coração partido?
(Um gole de vinho)
  Marca meu caro. Marcou meu corpo. A data e a forma em que aconteceu. Ele foi chamado pelo blues e se foi. O blues é meu romance-noir. Eu o amo, mas ele me tirou o que mais amava. É como um homem viril que crava as unhas nas coxas brancas de sua fêmea e não a beija. Ou como o homem que só beija sua mulher uma vez.

- Me fale sobre a despedida.

- Eu... bem... (trago no cigarro, olhando pela janela). Eu estava na sala. Ele saiu do quarto, me olhou nos olhos, passou a mão no meu rosto e o polegar na minha boca. Naquele instante, senti que estava perdendo algo. Senti isso muito intensamente. Ele me olhou como se estivesse falando comigo, mas em silêncio. Aquele pequeno instante pareceu enorme. Vi nossas vidas passando em minha frente. Eu segurei sua mão e o abracei. Ele apertou sua mão nas minhas costas.
   Eu o soltei e de olhos fechados abri a porta. Ele deu um meio sorriso como costumava dar e me perguntou com um ar humorístico: "Quer me ver indo não?". Eu ainda de olhos fechados sorri. Ele veio perto de mim e meu corpo tremia, sem parar. Sussurrou nosso segredo, passou a barba em meu rosto e se foi. Eu fechei a porta e só conseguia ouvir o tic-tac do relógio que ganhei de presente da minha mãe. Eu ouvi ele por umas 1500 vezes e eu corri para a estação. Vi ele entrando no trem, pra longe de mim.

(Sorrindo)


"Quando um homem recebe blues, Senhor, ele pega um trem e passeia
Quando um homem recebe o blues, Senhor, ele pega um trem e passeia
Mas quando uma mulher recebe o blues, querido, ela abaixa a cabeça e ela chora"

3 comentários:

  1. Isso é cinema sem câmera, só com um fundo musical, um conto e sua imaginação.

    E eu achando que sabia escrever...

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