É tudo mentira

Eu quero acordar ao teu lado e te matar às 18 horas.
Quero te beijar em meio às tempestades e amarrar tuas tripas na porta.
Quero ser tua e te lançar aos leões famintos.
Quero abraçar tuas costas e nunca mais ter que olhar para teu rosto.

Quero amar-te infinitamente e te ver secando à luz do Sol.
Eu vou secar tua sede e atirar em teu peito.
Quero transar com você durante todo o dia e não te ver por uma vida.
Quero abraçar tuas costas e nunca mais ter que beijar teus lábios.

Vou arranhar tuas costelas de tanto tesão e cortar teu pescoço pelo rancor.
Vou chorar quando você partir e me alegrar quando você não voltar mais.
Quero secar minha sede em teu templo e te fazer comer areia pelo resto dos teus dias.
Quero abraçar tuas costas e nunca mais ter que ouvir tuas mentiras.

É tudo mentira baby.
O verde, o vermelho e o verão.
É tudo mentira baby.
Nunca houve verdade nisso.
É tudo mentira... E é tudo.

flamedua

 

 Estou indo embora para um quarto cheio de espelhos. Imagino que voce deve saber do que estou falando. Exatamente isso, estou indo realizar o seu desejo. Você me deu a música que eu precisava e em troca disso, pegou meu corpo para teu bel-prazer. Hoje eu estou indo para a sala cheia de espelhos e eu te encontrarei lá.
  Você definitivamente não resiste a mim. É como se eu fosse para você, o bife mais suculento do menu. Então, você me pede e me espera ansiosamente. Eu então sou servida em uma bandeja de prata, e você vorazmente, rasga minha carne em teus dentes, mastigando minh'alma lentamente, me misturando a tua saliva, me engolindo cautelosamente, enquanto lava teu paladar com vinho.
  Estou indo embora e como se sabe, não há volta. Não há quem conheça o que se tem depois da ponte, não há quem saiba como se passar por ela tranqüilamente. Estou indo pra lá. Talvez de lá, possa lhe dizer algumas coisas cara a cara.
  Você realmente não resiste a mim. Me sinto sendo tua presa. Você me olha de longe por entre os pés-de-algodão (que estão altos), com teus olhos amarelos, cerca-me sutilmente, e quando vejo você, está em cima de mim com teus dentes cerrados em minha pele, olhando me nos olhos e rasgando o meu corpo, as minhas costas. Me joga então pela boca no chão, e de meu ser tira a paz. Persegue meu cheiro e meu sabor, tornando-se um caçador de sua própria morte.
  Estou indo embora e não vou de trem. A estrada deve ser caminhada lentamente. Os caminhos parecem ser muitos, mas nada mais é que um emaranhado de caminhos que formam um teia, e todas no levam para o centro do alvo. De lá, talvez seja mais difícil ser atingida pelos dardos que estão jogando aqui, talvez eu esteja por perto.
  Você naturalmente não resiste a mim. Você passa por mim e me joga mentiras. Olha nos meus olhos com teus olhos vermelhos e me tempera ao teu gosto. Joga verdades e se esconde. Impenetrável és tu! Uma rocha afundada em tamanhas mágoas que nem você mesmo sabe onde se encontra teu espírito. E meu corpo se aprisiona a você, como se fosse mais um membro de tua anatomia. Ora me corta, ora me usa, ora precisa de mim, ora me quer. Sou teu baço. De tudo o que você tem, sou o que te deixa mais humano.
  Estou indo embora e vou agora. Me esconderei no recôndito de meu pai e no braço de minha mãe descansarei minha cabeça. O que meus olhos viram, aos poucos vai ser deixado para trás. A tua silhueta na porta será apenas mais um borrão de minha cabeça. Não haverá imagem que me lembrará você, ou perfume, ou tempo, ou canção.
  Você certamente não resiste a mim. Sou teu medo maior e teu maior sonho. Sou o que te levanta nas madrugadas secando tua garganta. Puxo teu ar e massageio os teus pulmões. Te dou a juventude que você perdeu, assim como eu tenho perdido a minha. Vendo teu corpo a prestação. Te passo de mão em mão e sorrio pra você. Você não resiste a mim. Você não teme a mim. Você é o meu espelho.

Vestido Vermelho

 Velho sentado em uma poltrona grande e bem acolchoada marrom. De couro envelhecido, em um escritório de muito bom gosto. As paredes cobertas de um papel de parede com um padrão de desenhos lineares. Tudo bem organizado. Ele não olha em direção a "câmera", olha aproximadamente 39º à esquerda da mesma. Um meio perfil bem iluminado pelas janelas abertas e sem cortinas. Janelas grandes de vidros pequenos. Ele fala:

- Ela era nova, bem nova quando chegou. Por muitos anos eu atendi pacientes que tinham problemas na família, em relacionamentos, com eles mesmos. Ela não me contou nada e me disse tudo. Ela fez com que eu visse meus problemas.

 Em um corte de cena, aparece então o mesmo escritório em algum tempo atrás. O velho, um pouco menos velho. Algumas coisas em diferentes lugares. Ouve-se apenas o barulho de um pequeno relógio de mesa e quando os ponteiros marcam 07h32minh, o velho diz:

- Fale-me um pouco sobre você.

 "Câmera" nela, nas mãos dela. Unhas sem esmalte, bem cuidadas. Sem anéis. No pulso, uma fita preta de cetim. Veste-se de preto da mesma forma. Mãos sobre a barriga. Foco nas mãos. Apenas nas mãos e nos seus pés, que calçam uma sapatilha sem salto roxa de algum tecido semi-felpudo. Ela diz:

 - É normal que eu só tenha perguntas?

 Foco na caderneta de anotações do velho, em suas mãos velhas, na sua caneta dourada.

 - Sinta-se a vontade para conversar como quiser.

 Uma longa seqüência de olhos, bocas, cabelos, mãos, pés, dela. No rosto, nenhum foco. Preserve o rosto dela.

- Por que me sinto cansada? É normal se sentir cansada se não se faz muita coisa? De onde vem a falta de coragem? Seria medo a falta de coragem? Ou medo é a "falta de coragem" mais evoluída?

 A sobrancelha do velho salta por trás das lentes dos óculos.

- Não seria outra coisa que ainda não é medo? É um problema ou uma virtude que tenho? Sentir-me cansada é a certeza que vivi muito? Sentir-me cansada é a certeza de que já não vou viver tanto? E pelo o quê eu vou viver? Ainda existe em mim algo grande, forte e intenso para que me impulsione a viver?

 O velho se remexe na cadeira, olha para sua caderneta e diz em um tom profissional.

- Algo assim não é o amor? Você é muito jovem, deveria está apaixonada.

 Flashes de imagens de seus ex-amores passam rapidamente, e apertando os dedos uns contra os outros ela diz:

- Acha mesmo que o que me falta é amor? Como poderei sentir-me amada? E o que isso tem com a minha falta de coragem? E o que a falta de coragem tem com o meu cansaço?

 Ele sorrir sarcasticamente. Foco em seus lábios recessiquidos.

- Deve ser mesmo difícil amar alguém com tantas perguntas.

 Flashes de imagens de seus ex-amores dizendo que a amava.

- Você ainda acha que vale a pena acreditar que exista o amor? Mesmo que você caia mil vezes por ele? Mesmo que depois de algumas quedas o vôo não vale tanto a pena?

 Ele a olha, pela primeira vez durante o tempo que estão juntos.

- Aconteceu algo com você?

 Ela se senta repentinamente, ainda não há foco em seu rosto, apenas em seu cabelo e na sua silhueta.

- E o que aconteceu comigo justifica eu fugir do que pode acontecer? É um pecado não perdoar? E se for, qual o preço que pago pela não-confiança? Há de fato algum motivo para que eu não confie?

 Ele a olha, e ela parece delirar. Olha para um ponto fixo no centro do nada, enquanto se pergunta compulsivamente, enquanto correm pelos cabelos, braços e pernas, suas mãos levemente tencionadas.

- E qual o motivo de dizer não? Por que meu coração perde o ritmo quando perco a visão? Por que dormir não me descansa? Que sabor tem a música? Por que não sai da minha cabeça? Por que não vai embora como eles foram? Por que as coisas não passam? O que é preciso para apagar?...
-TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM

 Ela é interrompida pelo despertador que diz que a consulta acabou. O riff da música se inicia neste ponto. Ela sai pelas ruas desnorteada, a "câmera" meio que foca e desfoca, aproxima e distância, vai e volta, mas ainda não foca seu rosto. Nunca se deve focar o rosto. Há flashes de um ex-amor em especifico. Flashes de dias bons, de sexo, de brigas, de discussões, de silenciosas discussões, de despedidas, de chegadas, cenas engraçadas, cenas estranhas, cena de seu ultimo adeus. Ela olha na vitrine o vestido. Mostra então ela com o vestido. O prédio então aparece, ainda com a "câmera" focada e desfocada. Ela sobre e os flashes agora são mais rápidos. Ela sobe até o terraço.
Volta para a cena inicial onde o velho está sentado. Sentado olhando para a janela. Da janela cai algo rapidamente. Mostra-a no chão.


"Vestiu-se de vermelho
Sem amigos pra contar falsas verdades
Caiu sem ter medo
Como é que os novos dias serão fáceis
Sorriu enfim
No fim saiu dali."

Recusa


Do que fui,
nada sou...
Do amor que vivemos
nada restou.

Na solidão deste exílio
imploro a sorte para te buscar
porém nem em sonho vens
quanto mais quero te ver
mais longe tu estás.

Nada de ti eu tenho que possa recordar,
até minha mente recusa
de onde tiveres te buscar
Meus olhos vazios não choram
meu cérebro cansado recusa em ti pensar
A garganta ressequida não lhe chama
o coração magoado mais uma vez te amar.

O amor que tive por você foi puro, foi belo
cada vez que te via, mais forte se tornava nosso elo.

A sua recusa deixou-me vazio, e por muito mais sem minha paz.
Já que você não me quis, não vou te querer jamais.


Agnaldo de Paula
Meu avô

50 anos com ela.



Desabotoe minha camisa. Corra as mãos sob ela em direção aos meus ombros e a desça até meus punhos. Me faça sorrir com isso. Olhe nos meus olhos com os teus, daquela forma quando você olha dentro da minha alma e me vê, como ninguém vê. Tire ela de mim.
Me abrace. Corra tuas mãos nas minhas costas e pare no meu sutian. Com graça, o arranque de mim. Puxe meu corpo para o teu e entrelace teus dedos no meu cabelo, como temos feito por tantos dias. Me olhe nos olhos. Tire ele de mim.
Me beije. Cale a minha boca com tua língua. Sugue minh'alma por ela. Corra as mãos até minha cintura. Sinta o calor que passa de ti para o meu ser. Seja meu dono. Leve meu corpo ao teu caminho. Leve minha pele para a tua. Faça de mim tua tatuagem. Desça sua mão e tire meu short. Desça o pelas minhas coxas e canelas. Suba com tuas mãos quentes redesenhando meu formato. Aperte-me. Tire ele de mim.
Fique mais um pouco. Dê me asas. Rasgue minhas costas e dê-me o fôlego. Tire-me o fôlego. Diga aquelas palavras mais uma vez. Faça-me senti-las. Eu quero. Tire de mim o que resta e erga sobre meu corpo o teu templo. Fique mais um pouco.
Deite comigo, meu senhor. Faça rimas com músicas para eu cantar. Sorria e me cubra com teu corpo. Há quanto tempo não fazemos isso? Por quanto tempo faremos isso? Responda minhas incertezas com beijos. Acompanhe meu medo até a porta. Certifique-se de colocar uma vassoura atrás da porta. Seja meu. Seja meu dono. Tire ele de mim.
Esqueça o tic-tac do relógio. Ele nos apressa e eu quero tempo. Quero parar o tempo. Tuas costas quentes me esquentarão à noite. Tua boca mata minha sede. Tua música cura minha dor. Teu cheiro mata minha fome. Teu seio é minha casa agora. Meu seio é teu lar. Leve teu medo até a porta. Tire-o de ti.

Sem título




  Todos os dias quando ela acordava, esticava-se ainda na cama. Nua, como dormia, andava pelo seu quarto tentando juntar os pedaços da noite passada. Via por todos os lados sapatos. Ela morava só em um pequeno apartamento. Todos os cômodos seguiam o mesmo padrão de cor: carvalho. Móveis claros, parede clara, muitas janelas. Em cada cômodo, dos três, havia sapatos. Espalhados pelo chão que seguiam o tom dos móveis, alguns em cima dos móveis, outros enfileirados. Era notável a quantidade de sapatos para quem tinha apenas dois pés.

  Ela colocava um roupão de tecido leve que batia mais ou menos no meio de sua coxa. Colocava chinelas de borracha, dessas que vemos nas propagandas, colocava água na cafeteira. Ia para o banho e lá passava 30 minutos sem se mover embaixo do chuveiro. Seus cabelos molhados cobriam suas costas. Os cílios grandes aparavam gotículas de água. Uma pele branca. Cabelos tão claros quanto escuros. A luz do banheiro era a de mil sóis, e só deles vinha luz. Porta aberta. Chão molhado.

  Sai ela do banho sem toalha e secando seus cabelos com uma toalha de rosto. Dentes escovados, cabelos desembaraçados, nua. Ela coloca o mesmo roupão de fino tecido, e vai até a cozinha pegar seu café. Enche uma xícara que beira a semelhança de uma caneca. Senta-se próximo à janela da sala. O dia está começando a acordar. Ela já está acordada há dias. Por uma grande placa de vidro esverdeado ela ver a cidade começando sua dança. O céu que escorre pelo asfalto fede a morte. Ela olha para o céu que está com um azul enegrecido e nuances púrpuras. Sentada na sua cadeira ela se recorda das palavras de um velho trovador, proferidas poderosamente há nove anos atrás. Ela espera que suas palavras se tornem realidade enquanto está olhando apenas pela janela.

  Então os céus arregimentam uma grande tempestade. As cores que estavam tão escuras se fecham no cinza mais escuro que já se viu. Ela da cadeira, levanta seu olhar e enruguesse a testa como se buscasse respostas nas nuvens. Cogita a possibilidade de entender o que o maldito trovador disse há anos. Então espera silenciosamente, como se os raios fossem as trombetas de algo que está perto. O inicio de um ritual. Precipita então do céu a chuva mais leve que houve relato. As pessoas da rua nem mesmo percebem o que acontece. A placa de vidro está lavrada de gotas de chuva.

  Ela toca o vidro ainda em busca de respostas. Ela continua a esperar e a chuva vai embora. O despertador toca. Ela sai para trabalhar na escola que conseguiu fundar com ajuda da mãe e da sua madrinha rica. Todos os dias ela vai à escola e toca algumas músicas que fez quando mais nova, lê com os alunos... Dança. Ela sorrir tanto que dá agonia. Seu cabelo está tão grande como nunca esteve. Seu corpo continua o mesmo. A imagem do céu em águas ainda não saiu da sua cabeça, assim como tais palavras. Ela vai pra rua, bebe e sorrir mais um pouco. Volta pra casa.

  Todos os dias quando ela acorda, estica-se ainda na cama. Nua, como costuma dormir, ela fica tentando juntar os pedaços da noite passada, em busca da resposta da pergunta que ele fez, antes de entrar no trem.

Invictus



Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

William Henley

The end was always closer


Queime trimensalmente as cartas que você escreveu e não mandou. Jogue seu celular em uma pia cheia de água e não anote os antigos números na sua agenda. Tire do seu guarda-roupa as roupas que você não usa há 1 mês. Se em 1 mês você não a usou, não usará nunca mais. Corte seu cabelo daquela forma que você não gostava há 5 anos atrás. Fique em silêncio por uma hora. Se sente de frete ao Sol até que sua pele esteja perfeitamente aquecida. Vá para auto-estrada e ultrapasse o 7 do painel do carro. Ligue o som o mais alto que puder. Pule na sua cama. Compre para as crianças mais próximas pistolas aquáticas. Brinque com elas. Aproveite a chuva para fazer uma leve caminhada. Pinte seu quarto. Encha o copo da sua bebida favorita e ofereça a alguém. Escolha uma pessoa para contar a verdade sobre si mesmo. Observe tudo o que te assusta e reúna-os em você. Se vista de palhaço se for preciso. Depile suas pernas com cera quente. Não se engane com você mesmo. Ame-se. Faça um vestido e dê de presente para alguém. Certifique-se antes que irá caber na pessoa. Saia com seus melhores amigos. Escolha um melhor amigo para pegar a estrada com você, desde que a música do rádio seja a única coisa que vai falar. Passe 1 mês sem usar sua droga favorita. Corra muito. Há quem diga que é recompensador ultrapassar os seus próprios limites. Não se preocupe com problemas, nem se surpreenda com eles. Problemas lhe acompanharão até a morte. Pra ser sincero, a morte é o menor de seus problemas. Converse com um estranho sobre o que você mais gosta. Invente histórias. Seja lunático. Roube algo desinteressante. As pessoas estão sempre roubando. Cuide de sua casa. Mantenha-na pura e clara. Pinte seu cabelo. Use uma maquiagem diferente. Liberte-se de seus preconceitos. Seja aquilo que você olha torto na rua por um dia. Ouça a música que você não gosta. Fique uma noite sem dormir para ver o nascer do Sol, é uma maravilha. De vez em quando, fuja da sua casa. Fique novamente em silêncio. Procure seus cadernos antigos. Tire um dia para tirar fotos diferentes. Procure aquilo que ninguém viu. Grave um vídeo de uma loucura. Tome banho de mangueira. Jogue futebol e ande de patins. Deixe seus cabelos sujos por alguns dias. Deixe sua barba crescer. Escove os dentes. Tome um banho gelado. Mastigue gelo durante o dia. Aprenda uma nova receita. Diga o que quiser. O que quiser, quando quiser. Não tenha medo. Não tema o futuro. Esqueça o seu passado. Aprenda a perdoar para ser perdoado. O que aconteceu nunca mais acontecerá. Não se tranque. Abra-se, tem um mundo enorme lá fora esperando por você. Volte a fazer o que você costumava fazer. Não se acanhe com os "nãos" que surgiram na estrada. A vida é mais "não" que "sim". Queira ter filhos. Nada que disseram de você é verdade, só aquilo que você acredita que é. A sua maior arma é sua voz. Use-a. Não discuta com pessoas levianas. Não se abra para pessoas que parecem confiáveis. Seja algumas vezes desonesto. Seja algumas vezes mau. Seja algumas vezes perverso. Seja também honesto, confiável, bom e gentil. Tenha grandes sonhos. Aprenda a sonhar novamente. Não se esqueça de você em nenhum segundo. Só mantenha aquilo que te faz bem por completo. O que te faz mal, mesmo que acabe com apenas 1% de sua felicidade, deixe de lado já. Ser 99% feliz não é ser feliz. É ser infeliz. A felicidade é a plenitude. Ande devagar na rua. O tempo pode calçar seus pés ou sua mente. Escolha. Não tema suas escolhas. Não julgue muito. Agir com o coração requer sabedoria. Se não tem, não faça. Levante cedo e vá caminhar. Por mais feia que seja sua cidade, o céu continua lindo.

A Saudade


Sinto falta do que havia entre nós. Era possível sentir no ar. Não perceber ou ver. Se sentia. Algo grande, forte, quente, vermelho e azul. Eu o queria tanto. Éramos nós artistas de um mesmo picadeiro. Fazíamos da noite nosso lar. Entre grandes e pequenos só havia eu e você e o que construirmos para nós. As coisas faziam sentido no meio da loucura que vivíamos. Nossa liberdade era tamanha que nos sentíamos constantemente andando em parapeitos e viadutos. O mundo era pequeno para nossos pés. Nos beijos, colocávamos ali as palavras que escapavam pela língua. Nos risos, colocávamos a satisfação de sermos o que éramos. Nos dias difíceis, deixávamos claro o que poderia fazer nos separar. Dia após dia, esperando que o tempo desse a ordem, esperávamos pelo futuro que nunca nos chegou às mãos.

Mas com o passar do tempo, os risos já não mostravam nada. Os beijos não se chamavam. Os dias difíceis nos visitavam sem antes telefonar. O passado assombrava-nos na noite que um dia foi nossa. O canto e o violão pareciam desentoados e a música já tinha ido embora de mala e cuia. Nos deixávamos atordoados e confusos com a dúvida criada por nós. Eu via erros em você e em mim só havia o descaso. O peso de não confiar nos guiavam para pontes que já tinham sido queimadas. O seu ego tripudia em mim. Minha ignorância te olha ironicamente. O cinismo nos servia na cama. Os caminhos trilham para o desencontro. Gritos e noites separadas. Lágrimas com teor de álcool de 78% molhavam nossas roupas. Sentíamos as mesmas dores, e estas, eram criadas por nós mesmos.

Aos pouquinhos, aos pequenos pedaços, não vimos mais um motivo para sermos o que éramos antes. O que havia no ar foi extinto e a razão é desconhecida por todos. O que nos resta são mais anos e anos nos arrependendo do que poderia ter sido algo fértil. O sexo estava morto e o nosso negro amor também. Morremos em pequenas doses, em meio os sorrisos que já não se faziam presentes. Como amantes predestinados à morte antes do amor. Como histórias do século XII. Como romances de Carnaval. Como romances que acabam quando todos os confetes estão no chão.O que havia entre nós, agora é como um fantasma de algo que nunca fomos por completo. Se foi. Só nos restou a saudade. E isso é uma loucura... tchurutchutchutchu...

As rosas não falam


  Ela foi encontrada sentada numa praça, debaixo de um pé de planta. É estranho como aquela árvore estava enorme. Enorme. Ele a viu ali sentada e como outrora, sentiu o que ela sentiu. Ela então o olhou nos olhos e ele desconcertado se aproximou. Como de costume, ele falou algumas mentiras depois de beijar-lhe a mão. Ele entendia completamente o que ela falava e sabia das mentiras que ela contava. Mas tudo bem, tudo estava bem. Ele estava com a roupa mais bonita. Ela estava com a roupa de sempre. Era carnaval e todos estavam preparados para aquela noite. Ele então tirou do seu bolso uma máscara cor de vinho e entregou na sua mão, com um sorriso mascarado disse que era pra combinar com seus olhos.
  Ele saiu com uma preocupação arraigada em seu peito, ela ficou com a solidão que estava acostumada a lidar. Do céu, chovia confetes e pintavam o chão de concreto. Ele no meio de todos, olhava para a pequena que estava sentada embaixo da árvore que tinha estranhamente crescido. O vestido branco que era característico dela, estava molhado e com uma leve transparência. Não se sabia se o que molhou foi o orvalho da árvore ou outra coisa. Mas de certo estava encharcado.
  Como de costume, ele a tirou pra dançar. Vê-la tão quieta, era de certa forma assustador. E como de costume, desceu do céu uma chuva tão fina e tão cheia ainda... algo sobrenatural. Eles valsavam a mesma música a cerca de um ano, sabendo que mortos estavam por isso. Todos paravam para os olhar dançando fora do ritmo. Como de costume ela deitou sua cabeça em um de seus ombros, e ele encaracolava seus cachos rúbios. Como sempre, ela estava embriagada e ele ainda era um cavalheiro. Ele notou que seu coração estava de certa forma, arritmado. Isso em geral acontecia. Chegou perto do pescoço, a abraçou forte, e dessa forma foi dito sem ninguém ouvir "Just Breath". A apertando contra si, ele entendeu o que estava acontecendo e ela também. Ele perguntou tranquilamente:

"Minha menina, o que há com você? Que marcas são essas em teu corpo? O que fizeram aos teus olhos? Onde está tua companhia e pra onde teus pés caminham? O que houve com tua voz, meu rouxinol? Onde está o teu vermelho? Me fale sobre teu vestido branco, como ele ficou assim. Por que não me disse o que estava acontecendo com você?"

  Como de costume, ela sorriu para ele e disse que estava bem. Naquele momento, tanto aquela donzela sem alguma reputação ou valor, quanto aquele boêmio de boa família, entenderam que era mais que um adeus. Era a canção de um funeral. Eles então deixaram morrer um no colo do outro.

Apague a luz


  As músicas estavam tocando alto. Havia tanta lama no chão quanto na Woodstock de mil novecentos e sessenta e nove. As músicas falavam sobre juventude, liberdade e amor. Eu era jovem e estávamos brincando em meio a multidão. As luzes entravam em nossos olhos partindo nossa pupila ao meio. A música era cortante e as risadas se tornavam espontâneas.
  Parecia já antes preparado, quando eu seguia o próprio Diabo em busca da minha própria morte. Eu via uns dançando, outros se embriagando. Eu estava sóbria mas me sentia entorpecida. O mundo girava tão lentamente. O amor nos fazia graças. Era a mais solene canção tocada para aquele punhado de gente.
  Mas naquela noite, o mal foi disseminado naquele descampado. A covardia deu lugar a todas boas daquele lugar, deixando aquele ar pesado demais para que eu pudesse respirar. Meu corpo saiu de minh'alma e o meu espírito estava longe. Deus olhava para mim como um dia olhou para seu filho Jesus na cruz.
  Eu me dilacerava em solidão, entre milhares de pessoas que nos olhavam na valsa da morte. Suas mãos encravadas em minha cintura fazia meu coração ter sopros como a pequena Hurricane. As palavras gritadas eram como pequenos tiros de uma espingarda calibre doze em meu ventre. Olhos de rapariga me observavam de longe enquanto os eu tentava me esconder quando aquelas mãos feriam as minhas. O álcool era o combustível da noite infernal.
  Quando a música acabou, apagaram as luzes. O que parecia o fim, foi apenas mais uma elaboração de planos. Como era de costume se dizer.

Atrasada!

Modifiquei.

Houve então um dia em que saíram todos para brincar em um grande parque. Haviam pessoas por todos os lados e as vezes parecia que "Deus" tinha fechado os olhos para a humanidade. Turistas de outra estação nos observavam através das nuvens. A noite estava no seu início. Molhados até o joelho pelo capim do jardim, avistou-se um coelho que caminhava lentamente. Mãos no bolso, olhar distante. Con-cen-tra-ção.


"Não havia nada de tão notável nisso; nem Alice achou tão
estranho ouvir o Coelho murmurar para si mesmo, 'Ai, meu
Deus! Ai, meu Deus! Estou muito atrasado!' (quando pensou
nisso, bem mais tarde, ocorreu-lhe que deveria ter estranhado;
porém, naquele momento, tudo lhe pareceu perfeitamente
natural). Mas quando o Coelho tirou um relógio do bolso do
colete, deu uma olhada nele e acelerou o passo, Alice ergueu-se,
porque lhe passou pela cabeça que nunca em sua vida tinha visto
um coelho de colete e muito menos com relógio dentro do bolso.
Então, ardendo de curiosidade, ela correu atrás dele campo
afora, chegando justamente a tempo de vê-lo sumir numa grande
toca sob a cerca.
No instante seguinte, Alice entrou na toca atrás dele, sem
ao menos pensar em como é que iria sair dali depois.
A toca do coelho, no começo, alongava-se como um túnel,
mas de repente abria-se como um poço, tão de repente que Alice
não teve um segundo sequer para pensar em parar, antes de se
ver caindo no que parecia ser um buraco muito fundo."

O dia do Capeta



Quero comer tuas mentiras no café da manhã acompanhado de cachaça.
Transar sem camisinha com teu silêncio.
Beijar tua ausência quando ela chegar.
Quero discutir com tua preguiça e pegar um cineminha com sua indecisão.

No almoço, vou temperar tua cegueira com pimenta e salgar tua malícia.
Tudo isso banhado no azeite que corre do teu rancor.

Quero nadar de tarde nas tuas mágoas.
Ver o por do Sol com teu cinismo.
Abraçar forte tua frieza e contar piadas com teu medo.

De noite quando a Lua fizesse cena, eu arrumaria uma cama para teu egoísmo.
Com lençóis de cetim, forraria o travesseiro do seu desafeto.
Dá um beijo na testa da tua ambição.
Sentar-me numa poltrona ao lado de tua cama, com a mesma cachaça, esperando que tua infidelidade feche os olhos.

Asa Pequena


Então você achou que tudo estaria fácil para nós dois?
Baby, você sabe que caminhamos sempre em círculos.
Há alguma coisa ainda não resolvida para nós.
Bem, você me pergunta o que é preciso pra eu ir embora, mas você sabe o que é, você já fez isso.
Mas ok. Eu sabia que jamais poderíamos nos ver novamente
e parece que você achou que eu ficaria lhe esperando sentado na grama que você deixou morrer.
Agora me culpa por algumas palavras que eu poupei?
Eu disse a você que tudo estava bem.
Então por que não deixar como estava?
Parece sim que eu estava melhor antes, pois até o dia em que a verdade nos impôs a conversa,
eu não tinha necessidade de você.
Você diz que eu faço você perder a cabeça. Você me faz perder a paciência.
Agora está tudo frio novamente e você me acalenta com um silêncio familiar.
As coisas eram simples quando éramos jovens.
Mas não somos velhos ainda.
Me explique esse paradoxo?
Acha que um suposto amor deve ter nos envelhecido?
Você não acha engraçado por que brigamos se ansiamos as mesmas coisas?
Eu acho. Ou pelo menos, engraçado foi a palavra que mais encaixa.
Eu e você inventamos nossa liberdade nos perdendo de si.
Eu sei que sou um pobre menino frágil. E você sabe o que é?
Até quando músicas falaram por nós dois?
Olhe pra você e me diga o que te falta.
Então vou te olhar nos olhos e dizer o que eu preciso.
Quando isso acontecer, talvez estejamos já velhos e cansados.
Não correremos mais e nem sonharemos com um futuro feito de rosquinhas mabel e café.
Talvez seja tarde demais para realizarmo-nos como amigos que sempre fomos.
Mesmo querendo, algumas vezes, nos beijarmos loucamente.
Anyway. Façamos um trato.
Pegue essas pequenas asas quebradas e aprenda a voar.
Toda a vida você esperou por isso.
Tomorrow I'gonna be by your side.

Noir



  Eles cortam nossas gargantas como se nós fôssemos flores e o nosso leite foi devorado. Quando você quer uma coisa, ela vai embora depressa demais. Tempos que você odeia, sempre parecem demorar. Mas apenas se lembre, quando você pensar que é livre, a rachadura dentro do teu maldito coração, sou eu.


Eu quero exceder a velocidade da dor por mais um dia.

Gostaria de poder dormir mas não consigo deitar em minha cama porque há uma faca para cada dia que eu te conheci. Quando você quer uma coisa, ela vai embora depressa demais. Tempos que você odeia, sempre parecem demorar mais. Mas apenas se lembre: quando você pensar que é livre, a rachadura dentro do teu maldito coração, sou eu.

Eu quero exceder a velocidade da dor por mais um dia.

Minta pra mim, chore por mim, dê para mim - Eu o faria
Deite comigo, morra comigo, dê para mim - Eu o faria

Guarde todos os seus segredos embrulhados em cabelo morto, sempre.

Minta pra mim! Chore por mim! Dê para mim!
Deite comigo! morra comigo! Dê para mim!

Espero que morramos de mãos dadas. Sempre.

Duzentos e dezenove

Não comece a ler antes do vídeo carregar. Coloque o vídeo pra carregar e vá fazer outra coisa (se sua internet for tão ruim quanto a minha). Dê Play e comece a ler.




Em uma sala, em algum lugar.

- Eu me lembro muito bem daquela noite. Eu sinto o cheiro daquela noite no vestido branco que eu usava. Os cigarros tinham acabado e o vinho também. Ele então pegou as malas, o violão e se foi...

- O que você sentiu?

- ... Querido, não me interrompa. O que eu estou pra lhe dizer você nunca ouviu. Então guarde a caneta e o papel e escute com atenção.
   Ele tinha alguns trocados no bolso, estes suficientes para ele ir embora. Eu sabia que ele precisava ir, mas não queria que fosse. Você já soube o que é precisar de algo e não poder querer?...

- Aan...

- Baby, é algo que te corrói por dentro. Deixa você com arritmia e te envelhece. Se o vinho soubesse o que é amor, envelheceria muito facilmente, mas seu sabor seria muito amargo... (Trago no cigarro). É por isso que a casa é constantemente escura e vazia. Meus móveis e a "luz" se foram com ele. Eu entendo que isso tudo talvez seja muito pra você entender, talvez eu não esteja usando as palavras certas, mas baby, quem pode explicar um coração partido?
(Um gole de vinho)
  Marca meu caro. Marcou meu corpo. A data e a forma em que aconteceu. Ele foi chamado pelo blues e se foi. O blues é meu romance-noir. Eu o amo, mas ele me tirou o que mais amava. É como um homem viril que crava as unhas nas coxas brancas de sua fêmea e não a beija. Ou como o homem que só beija sua mulher uma vez.

- Me fale sobre a despedida.

- Eu... bem... (trago no cigarro, olhando pela janela). Eu estava na sala. Ele saiu do quarto, me olhou nos olhos, passou a mão no meu rosto e o polegar na minha boca. Naquele instante, senti que estava perdendo algo. Senti isso muito intensamente. Ele me olhou como se estivesse falando comigo, mas em silêncio. Aquele pequeno instante pareceu enorme. Vi nossas vidas passando em minha frente. Eu segurei sua mão e o abracei. Ele apertou sua mão nas minhas costas.
   Eu o soltei e de olhos fechados abri a porta. Ele deu um meio sorriso como costumava dar e me perguntou com um ar humorístico: "Quer me ver indo não?". Eu ainda de olhos fechados sorri. Ele veio perto de mim e meu corpo tremia, sem parar. Sussurrou nosso segredo, passou a barba em meu rosto e se foi. Eu fechei a porta e só conseguia ouvir o tic-tac do relógio que ganhei de presente da minha mãe. Eu ouvi ele por umas 1500 vezes e eu corri para a estação. Vi ele entrando no trem, pra longe de mim.

(Sorrindo)


"Quando um homem recebe blues, Senhor, ele pega um trem e passeia
Quando um homem recebe o blues, Senhor, ele pega um trem e passeia
Mas quando uma mulher recebe o blues, querido, ela abaixa a cabeça e ela chora"

Coma White


"Naquela noite eu tinha bebido demais. Eu estava muito feliz naquela noite. Há muito tempo não ficava perto de quem escolheu me amar. Nem dos meus amigos. naquela noite eu tinha cantado Blues com meu melhor amigo. Ele me ensinou a tocar baixo e sorria pra mim de vez em quando. Novamente, a ocasião pedia aquela música, que por fim não foi tocada, apenas ouvida.
Saí do recinto inicial e parti para outro. Eu estava duplamente bebada. Algumas pessoas sorriam de mim, outras comigo. Alguns dançavam comigo, outros dançavam pra mim. Um beijo! Poucas palavras e óculos de grau.
Eu fiz sexo. Eu gostei do que fiz. Morguei. Meus amigos então vieram conversar comigo. Tinha uma cobra que brilhava no quarto. Eu ainda estava muito feliz naquela noite. Eles se foram depois de muitas risadas contadas. Eu caí em sono profundo.
Um sono profundo que me rendeu uma dor infinda. Quem me dera ter sido a ressaca ou o cansaço depois de um fim de semana exaustiva. Durante a noite, o Sol resolveu nascer mais tarde. Deixou solto os monstros que estavam vagando por ali. Meu corpo, jogado às tralhas era muito suculento para qualquer um desses. E realmente foi. Um deleite para outro, que me tocou sem eu ver.
Acho que devo ter sorte pra isso. Volto eu então a ter medo das sombras e à ser amante da madrugada longa de 8 horas. Estou um caco. Novamente dada aos leões. Em tão pouco tempo... Hoje estou torcendo pra que os Vinte-sete venha tomar um café comigo, talvez, condimentado com o seu açúcar. Hoje eu já não quero mais sair."

Depoimento de Lisa. 27/11/1968. Aniversário de Hendrix.

Soda Cáustica


Hoje acordei com uma vontade enorme de te trancar em um quarto. Vendar seus olhos e te deixar numa maca feita inox sem algo pra cobrir sua pele. Quis então deixar na sua cabeça uma gota de água permanente, pingando e pingando... sem parar.
Te deixaria lá por horas, sem medo de te deixar tocar o lado mais fraco do meu ser, a pena.
Depois, com uma lixa de parede, lixaria a pele do seu braço e temperaria com sal a carne viva que ficaria ali.
Te deixaria acordado e com garras nos olhos para que não perdesse cada segundo. Como Kubrick, deixaria você assistindo os mais inescrupulosos crimes.
Prepararia de antemão várias agulhas. Agulhas para eu sobrepor em suas unhas. Centenas de agulhas embaixo da sua unha. Para te alimentar, separaria a carne em putrefação com vermes de inúmeras espécies. Em seguida, colocaria pra tocar Marilyn Manson pra você dormir, pelo menos pelas próximas 15h, à 180 decibéis.
Te perfumaria com soda cáustica. Te faria sentir o que senti. Apertaria seus testículos com alicates. De cabeça pra baixo lhe prenderia em uma cadeira de ferro. Rasgaria sua boca com um serrote. Furaria seus olhos com 7 palitos de dente cada um. Você comeria suas próprias fezes. Em todos os buracos possíveis, eu colocaria vermes e insetos. Aranhas de todas as espécies. Estouraria a sua bexiga com um arame introduzido pela sua uretra. 
Hoje eu acordei pra te matar!

Limbo





Gritaram na minha porta algumas pessoas com zíperes nos olhos. Era mais um caso de abstinência que me coloca de novo de frente aos meus medos. Estava com uma neblina linda aquele dia. Nem eram 6h da manhã ainda. O dia estava nascendo com um caso que mudaria minha vida. Eu desci as escadas com a roupa que estava, esquecendo que estava frio lá fora. As pessoas choravam e falavam alto. E eu as via em câmera lenta pensando primeiro por que pareciam tão cinzas, porque estavam chorando e o que diabos elas queriam me dizer. Naquele momento, eu comecei a pensar porque meu trabalho era esse: descobrir crimes. Por que eu? Essa era a pergunta mais idiota pra ser feita naquele momento. No meio dos choros sem fim e gritos desesperados, eu disse:

- Preciso de um café.

Disse isso como quem tem uma idéia. Saí rumo à padaria. Sentei em uma das cadeiras, pedi um café, um pão e esperei. Com bondade, a moça, que devia ter uns 50 anos, me pergunta:

- Quer que esquente?

Eu ainda não conseguia responder o que ela tinha me perguntado. Estava pensando nas pessoas que deixei na porta da minha casa. O que elas queriam me dizer? Quase que lendo minha mente, ouço um casal de jovens atrás de mim que, parando de sorrir, começaram a entrar num assunto que dava a impressão de que eu participava. Eu e minha mania de participar de conversas alheias. Mesmo que calado, participo como um mero ouvinte. O assunto era comum. Mais uma morte, ou um suicídio, ou um assassinato. Alguém tinha morrido. Pra eles era irrelevante. Para mim era um modo de me afogar em conforto. Voltei para casa depois de ouvir o caso das pessoas que choravam e gritavam. O Sol estava lindo naquele dia cinza. Ouvi as pessoas uma de cada vez. Mas prestei atenção somente no que o menino tinha me dito:

- Ela estava rodando e rodando em um pé só. As pessoas riam. Ouviu-se um fogo no ar. Ela caiu. A música acabou. As pessoas choram.

Isso era a coisa mais clara pra mim. Estava óbvio. Só precisava chegar ao lugar certo e encontrar as coisas, ir atrás do corpo (se houvesse), conversar com algumas pessoas, beber um pouco de café e tudo estaria bem.

O corpo não estava mais lá. Havia sido furtado. Isso complicava as coisas. O café havia passado. O sol havia passado. As nuvens haviam passado. Onde estaria? Nos braços de um necrófilo mau?

O mais intrigante é que tudo o que havia lá era um cérebro pulsante, a projeção de um lábio repartido e um longo pergaminho.

Se o cérebro estava lá, se os lábios se projetavam lá, se os pergaminhos estavam lá, onde estava o maldito corpo?

Se o cérebro estava separado, quem garante que não o estavam os outros órgãos? Os músculos cardíacos. As entranhas. Os olhos. Os ouvidos. Os rins!

E o mais grave era a incerteza: estava viva? Estava morta? Estava no limbo? Esta vagando em busca da massa cinzenta?

Mas mantive a calma. Tudo o que precisava era investigar outros casos pendentes, inspecionar outros corpos, até que em algum deles descobrisse o dela. Beber um pouco de café. E estaria tudo bem.


Fiquei sabendo que um grande show estava acontecendo ali. E que a chuva molhava as telhas enquanto uma música de ninar fora entoada como um funeral.

Cama. Coma. Cuma?



Tirei o dia pra brincar com as palavras. Peguei elas pelas mãos e as levei no parque. Balançaram e correram. Sorriam como meninas. Tragaram-me pouco a pouco enquanto traziam-me pra realidade doce que eu tinha nas mãos. Em pequenas doses, sugaram-me sensualmente para dentro delas. Devastaram meus devaneios devassos. Me cobriram e cumpriram a nova ordem.
As vírgulas pulavam dos áquarios. Bares abertos, carros fechados, olhos atentos. Ares desertos, rastros apagados, horas imensas. Eu e você sentados em cadeiras, um de frente para o outro. Eu e você no mesmo corredor, um de frente para o outro. Eu e você, de frente para o outro.
Respiração a mil. Procuro na minha bolsa Captropil, Bronfilil... Quando me vi, já tinha se esgotado os "ils" e o ar. Apaixonei-me inocentemente pelo 180.1 lotado. Culpadamente pela ida sem vim. Pelos devaneios. Pelos renascidos de luzes. Pelos palhaços com rostos pintados. Pelos equilibristas. Pelos calculistas.
Tirei o dia pra brincar com as palavras. Tirei o dia pra me tirar do dia.