Ball and Chain

Alguma coisa.
De novo.
Nas minhas palavras.
Estão me puxando.
Como uma bola.
Onde está a chave?
Onde está a porta?
Onde estão as minhas palavras?
Onde está a sua sombra?
Está afundando.
Está caindo.
Olhe lá.
                         Caindo.
                                    Caindo.


Tell me why.

Summertime



Você estará crescendo.
Ela diz. O problema é que acabei crescendo muito mais do que cabia em minha casa.
E onde estão as lágrimas que poderiam aliviar meu coração?
E eu nem pude ver, nem pude sentir o último adeus dos meus primeiros olhos verdes.

Pois então. O primeiro e único. Meu grande amor. Meu grande medo. Minha rocha firme e meu ponto fraco. Hoje eu não quero ser a Anna Roza, eu não quero ser Anne. Quero ser só a filha da puta  (de) que me tirou de casa. Só que continuar dentro.

Não queria estar crescendo, nem estar diminuindo. Só queria tudo ao seu tempo. Por que crescer no tempo errado? Era tudo para o tempo de verão. Era tudo para meu tempo de florescimento. Não agora.

Parte de mim, quer entrar nesse beco com a cabeça erguida, fumar o que for pra fumar, cheirar o branco perfume de muitas folhas, injetar toda aquela menina herói. Mas outra parte só quer sentir o quente das mãos de quem há muito tempo não me abraça.

NONONONONONONONONODONTYOUCRY!
Ela diz. Assim como eu, ela dizia isso pra ela mesmo. Assim como eu, isso ficou se repetindo há muito na sua cabeça. E por só um olho, não se sai tudo o que está preso em mim. São muitas feridas, de muitas guerras, de muitos lugares em que caí tentando usar aquelas broken wings que um pássaro negro me deu.

E de que me serve a chave, se não tenho o que abrir mais? E de que me serve os olhos cor de vinho se o álcool e nem a erva, e nem as águas surtem efeito?

Quebraram o coração de minha menina, do meu menino e o meu ainda se segura pouco à pouco. Acho que agora chegou a hora de deixar todo o vermelho de lado. Mesmo sabendo que com ele vai embora parte do que sou.

Quando nasci, eu não chorei de primeira. Nem no dia que morri. E desde quando tenho caído nesse limbo continuo da mesma forma. Minha armadura de lata reluzente tem me mantendo longe de inimigos, d'uma guerra que eu nunca quis entrar, de um lugar que eu nunca quis invadir.

Meu vermelho hoje se secou e hoje sim, as paredes me convidam para uma dança pintada com essa cor. Que ficará vermelha logo no ultimo passo. Eu sei e conheço a força que tenho nos punhos, e que o combustível de tudo isso não tem nome ainda. de forma que o cinza já tomou conta do lugar. Hoje nenhum quarto amarelo apagará o cinza que tenho dentro dos sapatos. Hoje nenhum vermelho salvará as cores neutras dentro da língua. Só hoje, o arco-íris perdeu para só um par de verde.

01/03/2010

Beauty And The Beast II





- Bela!
- O-Oi.
- Bela, não morra...
- S-Sim...
- E-Eu não vou m-morrer.
- Não?
- N-Não...
- Me diga então, de onde veio todo esse sangue?
- Vem d-de mim.
- É muito sangue, molhou meus pés!
- Eu S-sei
- Bela! Me explica isso. Diga-me, com todos os detalhes, como, quando e quem fez isso.
- E-Eu...
- Como?
- Costurando aos 17 anos, ela irá se ferir e adormecerá para sempre. Ao redor do castelo há de nascer uma grande roseira. Dar-se-á rosas colombianas de perfume sedutor, vermelhas como sangue, do tamanhho de mil homens, porém seus espinhos matarão, e crescerão assim que cortados. Para quebrar tal maldição, pede-se que um certo senhor lhe abra os olhos com um beijo.
- E agora?
- Espere...
- Hey, mr...



* * *



Bela cai então adormecida sobre seu colo e de longe ele pode ouvir a terra se sacudindo e rosas enormes saindo prontas de sua terra. Seu enorme jardim cinza agora é banhado de sangria, seu coração arrítmico foge com suas palavras. Ele fecha os olhos e já não está mais ali. Está em meio a um deserto muito familiar e só quer chegar para vê-la. Seus pés afundam na areia e o frio lhe congela os grandes cabelos escuros. Ele andou por muito tempo até que se viu em frente a seu castelo. Rosas enormes lhe indicaram a direção. Sabendo que não poderia lutar contra os espinhos, ele se achega de forma amigável, cantando e tocando para as rosas que lhe mostram a escada.
- Seu corpo ainda se arrepia com a minha voz. Ei, pequena criança, em algumas manhãs você estará crescendo e cantando. Sutilmente você me abraçará. Faremos castelos feitos de areia pra que eles sigam para o mar. Eu vou tirar a bala e A chave os seus pés e você voará com asas pequenas por entre as nuvens com zebras, borboletas e vaga-lumes, viveremos nosso conto de fadas,  na infinita estrada. Meu amor, minha flor, minha menina, este é o fim de todas as elaborações de planos, tudo correrá com o vento que chama por Maria.l está tudo acontecendo. Me dê um beijo meu amor, hoje eu tenho 100 anos, e o meu coração bate como um pandeiro, num samba dobrado.



* * *



Ele a beija... E sente seus lábios quentes. Ela se acendeu novamente como fogo...


Ela se chamava: ...





Dentro do seu quarto está ele, escrevendo sobre Café, Impala e Rock’n’roll.

- Como de costume, eu bebi mais do que eu deveria. Pra falar a verdade, não sei se esse carro consome mais litros de álcool do que eu. Diga-se de passagem que ainda gosto muito desse lugar...
- Mais uma dose?
- Não. Me dê um café, quero só conversar.
- Sim, prossiga.
- Há algum tempo ganhei esse carro, e posso dizer que dentro dele você não percebe o tempo se arrastando. Ela se foi, levando meu casaco, mas me deixou com ele para que eu a encontrasse – pelo menos é assim que eu penso. Mas ontem eu, como já falei, bebi mais que a conta. Acho até que a vi, neste mesmo lugar.
- Quem é ela? Sua amiga?
- Ela é o segredo. É tudo. Engraçado que ela estava diferente... Posso até suspeitar de que ela não era. Era como se... Se... Ela tivesse reencarnado no corpo dele. Não eram mais os mesmos olhos, mas era o mesmo olhar. Sobrancelhas curvadas, a boca vermelha e um cigarro na ponta dos dedos. Eu pude sentir, da mesma forma, um arrepio na espinha. Mas o impressionante era o olhar. O olhar. Olhos tristes e frios. Ele os flexionava quando a fumaça passava por ele. Na blusa, o convite da Santa Maria. Nos pés, um rastro da cor do cabelo dela. Um andar, estranho de quem já bebeu demais. Calado e sério, saiu do bar. Eu o olhava pela brecha da janela, pensando:

“Quando o copo esvaziar, eu vou lá.”

Meu copo esvaziou umas três ou sete vezes, mas eu sempre tinha medo. Até que, na minha distração, ele veio me pedir um cigarro: Blue. O mesmo cigarro que ela gostava. Acendeu-o com um isqueiro prateado e olhando para mim. É o que me lembro. Olhos como a relva. Nos olhando, saímos do bar, sem nenhuma palavra. Entramos no carro e fizemos o que melhor sabíamos fazer: fugir. Naquele momento, o silêncio era a melhor companhia e o cigarro parecia não apagar. Andamos quilômetros e mais quilômetros até que atravessamos a linha do bem e do mal. A gasolina acabou, mas ainda tínhamos bebida e cigarros, logo, a viagem não terminaria ali.
Ele me repousou sobre seu colo e me contou toda a sua vida. Um soldado, recém chegado da guerra contra si mesmo. Pediu-me então um corpo quente para aquecê-lo. Foi como se ela me tocasse, mais intenso, mais forte, mais quente. Eu queria aquilo pra mim, em cima dele, já não precisava fugir. Estava estável. Até hoje de manhã, quando acordou e o mesmo silêncio que d’antes me agradava me sufocava ali. Agora, sem gasolina, não posso procurar nem ela, nem ele. Só fiquei novamente, mas agora sei:

“Ruby deve ser nome de um demônio”.


HEY!
- O banner está passando por atualização, em breve um novo.
- Os links dos nossos orkuts serão divulgados na página Valentinas 



Férias


Férias significa basicamente dormir. Mas não para nossas Valentinas. Logo, venho por meio desse antecipar as justificativas das atualizações não-contínuas. Bom, eu estou vivendo a mil por hora mas postarei sempre que for possível. Gessyca está na faculdade, e diga-se de passagem, que suga a sua vida. Então postará quando puder, porque ela tem que assistir, analisar, transformar em texto, escrever, corrigir e postar aqui. É um trabalhão. A Laiane... bom a Laiane segue o vento, vamos esperar pra ver onde vai dar.
No mais, é isso. Quero agradecer o apoio do site Malvadas.org que tem nos divulgado, à todos os que nos visitam, comentam, leem, falam mal, falam bem, estrangeiros e conterrâneos... etc.

MUITO OBRIGADA VISITANTES!

Beijos sinceros de Anne.

Haze



"Névoa púrpura no meu cérebro me mostrou coisas que estavam na minha cara todos os dias. Me dizia ao pé do ouvido que havia o que temer e o que encarar. Havia na minha sala um cigano que eu temia, um detetive que eu encarava e um nobre senhor que a trouxe para nós. Ah... Depois dela as coisas não são as mesmas, tudo roda em outra direção, tudo pende para o lado mais leve.

O cigano me olhava e sorria pra mim, sabendo que eu estava em outra dimensão. Ele já tinha andado por muitos lugares recolhendo em cada mão seus desejos mais imundos, mas agora tudo que ele queria era casa. O detetive me olhava tentando entender o que eu sentia. Ele sempre teve casa, sempre teve seu escritório onde observava calculadamente todos os passos de todos os que o rodeava, e tudo o que ele queria agora era andar por muitos lugares. Tudo é meio engraçado mas não sei o motivo, tudo estava se movendo tão rapidamente enquanto a música ia numa frequência tão lenta, tão rápido, tão lento, tão rápido, tão lento... Licença, enquanto eu beijo o céu!

Quando percebi, a névoa púrpura estava por todos os lados e querendo ou não, os senhores Detetive e Cigano estavam na mesma dimensão. Eles usavam uma linda moça de pele branquinha e lábios vermelhos como cereja, amora e morango. Eu os olhava e cada vez mais ficava confusa. Não sei se estou me afastando ou me aproximando, mas eu me sentia em movimento. E até gostava da música que eles achavam que eu deveria escutar. Daí até comecei a achar que Legião não é ruim, ao mesmo tempo eu me perguntava: DEUS! Eu estou feliz ou caí em miséria? O que eles tinham que me fazia ser tão ambígua assim? Tão voluntariosa? Tão simples? O que quer que seja, eu já não conseguia parar de olhar para um deles. As perguntas foram me aparecendo à cabeça e era como se eu pudesse ler os olhos deles. Me dizia:


"Aquela garota pôs um feitiço em mim."

Então eu só conseguia rir, caros senhores, caros ouvintes dessa rádio. Eu ria e minha barriga doía de tanto rir. Meu coração estava arritimico e minhas bochechas coradas de tanta gargalhada. "Me ajude... me ajude... oh" era tudo o que eu pensava. Eu não sei, realmente não sei o que me deu naquela hora, mas era a forma mais simples que eu achei de disfarçar tanto interesse por aquele sr. Como se eu tivesse adormecido, como se ali o tempo tivesse passado tão rápido, eu já não conseguia deixar meus olhos tão abertos. Eles fechavam antes mesmo de eu conseguir abrí-los.

A névoa púrpura estava toda em meus olhos desenhando novos personagens para uma história que jamais será ouvida. O tempo então sentou do meu lado e me falou sobre um futuro. Dizendo que em uma dessas manhãs tudo estaria no seu lugar, dizendo que estava cansado de correr. Eu não sei se é noite ou se é dia, mas eu estava certa que a Primavera estava chegando, eu já podia sentir o cheiro de rosas se aproximando da Red House.

Então o tempo me falou:

"Você me confundiu, confundindo minha mente com suas palavras. Até tentei passar a perna em você, mas olha só onde você está. Você é uma garota crescida agora A. Você é uma..."

Depois vi que tudo estava vazio. Um silêncio preenchia o espaço do vazio. Só isso. E eu já não entendia, se é amanhã ou somente o fim do tempo.

Who knows?"

Are you experienced?

Já experimentou o gosto de ter mil coisas dentro de você e não conseguir expandir?
Já experimentou o gosto da verdade e não poder falar?

É como ter um orgasmo toda vez que a memória quer te lembrar.

Can you help me?

Respeitável público!




O circo está na cidade, e a cidade toda parou pra ouvir o dono do picadeiro gritar os nomes das atrações. Havia muita gente ao redor da lona amarela-roxa que cobria uma alegria escondida atrás de uma maquiagem para espantar a tristeza. As crianças tumultuavam a entrada e a saída do circo. Sortudo era o que conseguia entrar naquele espaço e era quase um deus o que conseguia um lugar para se sentar.
As luzes estavam acesas e os vendedores gritavam ardorosamente os preços de suas almas. Pelo ambiente se encontrava todos os tipos de pessoas: Crianças que comiam de tudo e de tudo tinham, sem saber de nada. Crianças que já tinham vivido mil anos, sem comer nada por dia. Sabendo disso, entrava então o Domador, o Dono do Picadeiro à anunciar o prelúdio de uma noite que seria lembrada por todos e jamais comentada. No chão de terra batido, uma bota com estrelas faziam a poeira subir enquanto a boca com dentes que rangiam com pedaços de carne, cheiro de vinho e cor de maracujá se aproximava ao microfone:

"Reespeitável público! Boa noite. Espero que vocês estejam preparados para o melhor espetáculo da vida de vocês! Com vocês, Os Lutadores!"

De repente as luzes se apagam e um feixe de luz branca corta ao meio a platéia, de cima da aste que segurava a lona, desce um homem com cento e noventa e três centimetros. A força em pessoa. Com braços grandes e fortes. Negra pele e lábios grossos. Uma cicatriz no rosto e na mão uma garrafa de cachaça. O foco era todo pra ele. A platéia que ainda não tinha visto ele fazer nada, além de estar em cima de um poste enorme, exibindo para todos o seu físico atlético vendivel. Músculos cobriam o único músculo que ele ainda não tinha preparado para aquela noite. Seguro de sí, entendia que quando se exercitava, estava ficando invencível. Tolo homem de aparencia tão primitiva. Logo, num passe de mágica, pode-se ver entre grandes leques negros-verdes-vermelhos, uma figura ainda não compreendida. Tão frágil, como uma gueixa indefesa, de olhos redondos e grandes, de uma cor que não se sabe qual é. Com ela, vinha um silêncio arrebatador. Derrubando todas as máscaras naquela noite, ela como um passaro em pleno voo, suavemente, repousou sobre aquele nobre senhor de músculos enormes, fazendo-o trair seu gosto por si mesmo. A platéia pára para vê-la em sua dança que é tão atraente e tão singela. Movimentos que se desenrolam lentamente. Ela o tem nas mãos. Ele começa então a seguí-la, com olhos fixos, e pode-se ouvir o eco de um suspiro vindo do fundo da platéia que ver o lutador, desdobrando-se por uma gueixa candanga, sem sutaques. Ela o olha com um olhar frio por entre uma máscara transparente, ele a olha com um desejo. Uma malícia que as raposas conhecem. A forma em que ele se torna um predador olhando a garota de leques escuros, babando como se estivesse com hidrofilia, como se quisesse devorá-la. Todos veem que ela tira a paz dele. O silêncio parece gritar naquele lugar com um groove maldito de cães que uivam do lado de fora da lona. Dando voltas num espiral infinito, a baba espessa que cai da boca daquele lutador, tem cheiro de alcool. O primeiro número do Circo é o último do lutador que perdeu a noçao do que fazer diante tal beleza. Hipnotizado por ela, só a via, só a seguia. Pra ele, o foco de luz era ela. Seus músculos começam a secar. Ele nota que já está ofegante, então parte para o ataque. Do palco, você pode ver algumas mães tampando os olhos de seus filhos, pois não havia mais nenhuma luta ali, só uma presa e um predador. Ele a toma nos braços, e alguns senhores riem daquela situação, enquanto do rosto apatico e palido dela escorrem longas lágrimas, o lutador deflora tal flor que estava desabrochando naquela estação, e num golpe de sorte, ela atinge tal músculo. Entrando por entre suas costelas, sentindo pulsar em seus dedos as veias e artérias de um homem que virou uma fera diante os olhos de todos. Ela se levanta e o refletor ofusca seus olhos. Enxugando as lágrimas com a manga de sua blusa com cheiro de cigarro e álcool, ela se levanta, deixando estendido naquele lugar um corpo, que secava cada vez mais. Da boca para o resto do corpo, com seu coração pulsando fora de seu corpo. As batidas dele ecoavam por entre a platéia, que fria, assistia fervorosamente o número. Pequenos homenzinhos levam o corpo do lutador e o penduram em uma aste do Circo, volta então o Dono do Arraial:

"Senhoras e Senhores, o Mágico"

E no meio de uma névoa cinza, surge o mágico com uma cartola colorida e lábios finos e vermelhos. Sua pele era bem branca, seus olhos eram negros e ele tinha um longo cabelo negro que escondia por dentro de sua cartola. Cartas de baralho, pássaros negros, gotas azuis, trazia consigo também um violão. Renascia em todos os números, e alegrava a todos por onde passavam. Tinha sempre coisas novas para fazer, tinha sempre coisas interessantes para mostrar. Algo novo na manga. Tocava algumas músicas que ganhavam formas, e isso prendia a platéia. Ele não dizia muita coisa, mas trazia muita coisa na mala. Não precisava dizer, estava subentendido. Ele então começa a andar em circulos, e suas pernas parecem maior que seu corpo agora, ele vê atrás de longos cabelos, uma garota, ajoelhada no chão, à dormir. Ele a pega no colo e sussura no seu ouvido, algo que até o Demônio gostaria de saber do que se tratava. Ela acorda e encantada por ele, começam uma valsa com meio tom acima, ninguém sabe de onde veio a música, e nem como, mas uma chuva voraz abriu o céu daquele Circo. Enchendo de sorrisos vermelhos aquela garota e de esperança o velho mágico, que continuam girando entorno de seus corpos, valsando, valsando, valsando, enquanto podia se ouvir nascer novamente para ela JJ e JH, que deram um toque especial no ambiente. Ela só o via, molhado por uma chuva criada de lágrimas de um número anterior, condensadas em nuvens que desciam forma de uma música que não se sabe a origem. Eles dançavam sobre castelos de areia, sobre as notas de um blues rasgado e sofrido. Até que em um passo, o mágico se põe a dançar com uma outra senhorita que desceu da platéia para o ver de perto. Parecia que eles se conheciam. Ela era tão bonita em relação a outra garota que era tão blue. Ela era vívida, quente e interessante. A platéia se mantinha calada, e ao mesmo tempo, podiam se ouvir rumores por todo o lugar. Os solos de guitarra que faziam a valsa, encheram a cabeça da pobre sem par. Transbordaram e quando já não aguentou mais, um grito saiu de sua garganta como um lamúrio, como o choro de mil virgens, como um pedido de socorro de milhares de soterrados. Era seu coração que batia com tristeza. Ela viu então, a chuva parar, e do chão molhado subir novamente a água que também levara o mágico embora. A plateia começa a vaiar a pobre garota, que nenhum número ainda tinha apresentado.
Mas entrando pela contramão, em um cavalo amarelo, vem ele com um cigarro na mão, fumando com uma boca não muito bem desenhada. Cavalgou por entre os bancos, e as moças da platéia se derretiam por ele. Ele correu até ela, e a levou para passear. Deixou a luz nela, para lhe ofuscar os olhos. Um cavaleiro, um domador de feras. Não via mais ela, que seu corpo definhava, sua pele ressequia, sua alma se esvaia do corpo, sua voz não saia mais. Olhando para aqueles olhos amarelos, ela chorava e pedia socorro, num palco molhado, começava a crescer uma grande erva, que secava a vida que antes havia ali. Seu corpo estava enfraquecido, presa a ele com grilhões, ela ver refletido nas púpilias do domador de si mesmo, um palhaço a se maquiar. Um sorriso na face pintou, e com lápis preto marcou seus olhos. Descendo do cavalo, arrastando seus grilhoes, ela se aproxima dele, com um ar desesperado, a platéia em um coro só faz o suspiro de um amor que acaba de brotar ali. O sorriso do palhaço se solidifica em seus lábios, o lápis preto então começa automaticamente a descer, tornando um simples palhaço no que chamamos de Pierrot. Um romance cantado por Cazuza naquele lugar, que acabou com o Domador tomando a garota em seus braços, e a arremeçando na jaula de grandes feras que rasgaram seu vestido, manchando-o da cor de seus cabelos: vermelho. Ela novamente, se refez de cinzas, de sangue e lágrimas colocando novamente a cantar, julgando-se amada por um dos que passaram pelo picadeira. O sangue escorria por todo o palco, umedecendo a terra seca de um picadeiro nunca antes visto. Na platéia, os engravatados religiosos fechavam os olhos e debruçavam sobre seu colo a língua venenosa. Ela sendo iluminada no meio de tanta dor. O foco.
Entra então em cena alguns poetas boêmios, jogadores de cartas, músicos, artistas descidos de um disco voador. Cantando ao seu redor, estavam todos dispostos à fazê-la sorrir. Com alguns copos de cana, poucos olhares viram nascer de seus cabelos um jardim lisérgico que escorria por toda a extensão do picadeiro. A terra que outrora seca, molhada por seu sangue, começa a dar vida à rosas vermelhas, sem espinhos, de perfume agradabilíssimo.
 Cresce as rosas em direção ao Sol que se esconde embaixo da lona.
Seu vestido foi remendado por flores, logo, ela embala mais forte na música, criando ao seu redor fogo, música e fumaça. Chama então atenção de menestréis, de trovadores, cantores, boêmios e todos os que estavam ali olhando ela girar e girar. Um novo nome foi colocado em seu seio, seu coração foi trazido em uma caixinha de bronze. No seu pescoço ela carregava um emblema que chamou a atenção do que se mantinha na escuridão do espetáculo. Quieto, acompanhado apenas de uma garota. Uma linda garota, de curvas sinuosas chamou a atenção dela. E chamando-a pelos número, pelos códigos, ela se aproximou e a verdade se fez tão sólida quanto o sonho abstrato de uma vida longe daquele lamúrio. Ele então, deixou de lado a pequena L. e foi de encontro a doce menina de lábios vermelhos e olhos pintados com carvão. Ele cravou em suas pernas asas, lhe tirou a chave, a bala, a sede. Tirou ela daquele picadeiro, a levou para um lugar que produz algodão. Num infinito verão, numa infinita dança, embaixo de estrelas. Suas dores ele sanou com sua voz. Com traços finos. Com a verdade.
Caiu então a lona sobre os que lá estavam e de longe podia-se ouvir as gargalhadas envenenadas por um liquido quente. Ela já não estava só. Agora tinha começado a melhor estação do ano. O Sol já está saindo, é tempo de correr. Está na época, esta é a época. É a época.

A Primeira Coisa

Imagem: LizzieRz

Há dois mundos num espaço menor que 10 km. Há um mundo que é cheio de luzes amarelas. Por todos os lados elas são penduradas e se mantêm acesas todos os dias. É muito simples: às 6h elas acedem, às 6h elas apagam. Durante o tempo que estão apagadas, elas se recarregam para serem acesas novamente. Se acedem só, a partir de um sensor que percebe a baixa luminosidade, ativando-as fazendo elas acenderem. As pessoas, de certa forma, se sentem bem mais seguras embaixo da luz. Elas dizem: "Não vamos por aí que não tem luz" ou "Já está muito escuro pra sair".

Parece que as luzes nunca queimam. Sempre acesas, sempre às 6h, sempre iguais nos seus lugares "protegendo" seus fãs. Esse é um mundo. Um mundo todo iluminado. Por ser assim, as pessoas que acostumam com a luz, tendem a ficar apenas onde tem luz. Elas seguem a luz e por ela são guiadas. De alguma forma se sentem mais seguras seguindo um luz que ofusca até mesmo a luz de estrelas. Nesse mundo o álcool foi colocado como responsável por colocar sorrisos nos rostos. Não importa muito o que você pensa ou o que fala. Tudo é medido por quantas cédulas tem sua carteira.


Há outro mundo. Um mundo diferente. Nesse mundo, as luzes não sobem no palco. Nesse mundo podem-se ver milhares de luzes amarelas, iluminando o mundo outrora citado. Esse é um mundo a parte. Geralmente, não é lembrado pela maioria das pessoas. Lá é frio, o que obriga a ficar bem junto. Lá é vazio e tem eco, o que obriga a sussurrar. O encarregado de colocar sorrisos nos rostos é o tesão. Ele faz isso da melhor maneira possível. Lá é alto, mostrando o quão pequeno são as luzes de outro mundo. Quão insignificante é o fato de ter ou não ter uma roupa da moda. Lá é escuro, o que chama as estrelas para conversar, mas para que não se perca, a Lua mostra o que há sob os pés. O Sol sempre se debruça sobre esse mundo primeiro. De longe você já pode sentir seu calor. O que conta lá é o que tem pra contar, não muito que você veste (e se você veste algo). É tudo muito simples. Nesse mundo só há uma estação. Pintada com batom vermelho, ela dura o ano inteiro. Profundamente superficiais são as palavras. É lei ser incerto e insensato. Há música de grandes deuses e a dança é usada para se aquecer. Esse mundo é alto. Eles já estiveram lá. Dançando sem luzes, vendo apenas com os feixes da luz da Lua que decepava as nuvens.


Há dois mundos. Ela está no meio dele, dançando no tempo. O que é a primeira coisa?

Espere pela segunda coisa.

Das grades



Dedico esse texto ao blog Catalepsia Produtiva e, conseqüentemente, ao seu alimentador, Felipe “Miro” Dread.



É verdade. Pode se sentar onde a lua ainda entra na sua cela, pra se ter noção de como é a liberdade. Jogue fora os maçaricos e os pés-de-cabra, pois nossas grades são mais resistentes. Cuidado com a alienação que te servem no prato. Ouça pela parede fria o sorriso que ela provoca em quem a chama para conversar, mas não se engane: quanto mais riem, mais ficam cegos e surdos, e o pior, mudos.
È verdade., e quem poderá nos contestar? Estais preso, meu caro.  Trancafiado assim como todos nós, atrás de algumas grades que nós mesmos criamos, por medo, e outras que nos foram impostas pelo carcereiro que chamamos de governo, pela senhora rica que chamamos de religião e pela maioria que os transformam em pessoas de total poder.
Olhe, há quanto tempo você está aí? Olhe que em outras grades ainda tem crianças! Olhe os anciãos à sua direita, e veja seus pais em celas. Um grande sanatório, um enorme presídio.
Porém, veja que de algumas, pouquíssimas, pra ser sincera, sai algo que conforta os presos. Veja saindo de dentro das grades palavras que são idéias. Veja a música que ganha forma. Veja a arte escorrendo pelos seus pés. São eles e somos nós, prova de que não estamos sós, nem mesmo vazios de idéias. Veja reluzindo no seu recinto todas as coisas juntas, músicas, poesias, prosas, crônicas, literaturas, teatros, danças, pinturas, esculturas e culturas. Essa é a nossa liberdade! Essa é nossa deixa! Nosso segredo confessado. Não há grades para os que têm palavras nas pontas dos dedos!

Child in time II



De longe você ver o tempo correndo com os vestidos nas mãos, como um amante que foi pego em flagrante depois da traição. De longe você pode perceber que dentro de um morango que ainda está verde por fora, por dentro já está maduro. De longe você entende então que se passou tanto tempo em uma noite só.
Aí você começa a ver que no rosto dela escorre um grande desespero de ter estado mórbida durante tanto tempo. Ela só deu 18 passos e já está tão cansada. Ela olha para seus semelhantes e em cada manhã eles estão revigorados e vivos, enquanto ela acorda contando os dias que lhe restam.
Ela ainda tem relógios, mas ela já sabe que a hora certa não chega. Os ponteiros hoje ecooam muito mais alto. Ela se ver no espelho enxergando um passado vivo e um futuro incerto. Hoje ela entende o rouxinol que partiu há 40 anos.

Tic... Tac... Firme... Suave... Firme... Tac... Tic... Suave...

Ecoa. O tempo ecoa mas não se repete. Ecoa mas não se prolonga. Só passa. Corre com os vestidos nas mãos. Diante dos olhos dela. Mas ainda há quem diga: "O tempo é seu aliado. Use-o." Mas o seu coração bate tão acelerado quanto as batidas dos ponteiros. Já são 5 horas! Já são 5 horas! Em breve serão 6 e quem se preocupará em cuidar para que os olhos de vinho não se perca?

Ela tem sua casa, mas ainda está só.
Ela tem uma família, mas ainda está só.
Sempre tem música no lugar, mas ela ainda está só.
Tem um cigarro nas pontas dos dedos, mas ela ainda está só.

Hush Baby.

Child in time I

Os quatro valetes.

Valete de Paus
Ele nasceu em 1942 e aprendeu a tocar piano com sua mãe em uma Igreja perto de sua casa. Inglês, formou uma das bandas de rock 'n' roll de maior sussesso nos anos 60: Rolling Stones. Brian Jones realmente era um eximio guitarrista. Um dandista, como todo bom inglês. Excentrico e inovador. Apesar de vermos sempre Rolling Stones com o frontman sendo Mick Jagger, não se pode esquecer da maneira irreverente de Jones usar a música clássica no rock, indo de frente à outra banda inglesa que também se destacava nessa mesma época, The Beatles. Mas junto todo o talento dele, havia um vício pelas drogas incontrolável, que acabou por fim, tirando a sua vida. Em 03 de julho de 1969, o mundo deu seu adeus à um dos grandes nomes do rock. Um guitarrista singular, morreu afogado na sua piscina. As dúvidas que os fãs e alguns especuladores fizeram na época, foram todas confirmadas. Frank Thorogood confessou o crime em 1993 em frente ao túmulo de B. Jones. Morto aos 27 anos.


Valete de Espada
Nasceu em Seattle em 1942, já com a promessa de um grande homem. Jimi Hendrix, um deus. Dominava a guitarra maravilhosamente, por amar a música acima de todas as coisas. Um trabalho árduo e prazeroso. Saiu dos EUA por falta de incentivo, para a Inglaterra, onde conseguiu o que queria: ouvidos. Ouvidos dispostos a ouvir sua música, complexa e simples. Quente e tranquilizadora. Veio então a The Jimi Hendrix Experience. Apresentaram-se no Monterey Pop Festival, onde Jimi mostrou o que realmente sentia ao tocar: tesão, fogo e paixão. O que se teve nessa mistura, foi a gloriosa performance de JH no evento, ao queimar sua guitarra no palco, após um longo amor com ela. Jimi disse a imprensa que era um sacrifício, e quem contestará. Ainda não satisfeito com isso, Jimi emocionou a todos os que continuaram persistindo nos tres dias de Paz, Amor e Música, numa fazenda no interior de Bethel. Jimi fez do hino nacional americano, um protesto, um ode ao evento e aos seus ideais, o qual foi ensaiado durante meses em sua cabeça, em seu coração, em lugares distantes. Marcou a vida de milhões de fãs e até hoje arremata milhões com seus solos impossíveis, suas escalas incríveis e sua voz que não canta, mas declama suas canções. Jimi deixou a Terra em 1970, dois meses antes de seu aniversário de 28 anos. Em 27 anos, transformou a Terra, as pessoas, os humanos, a forma de se ver a música e de se apreciar a arte. Morreu em um hotel, engasgado com o próprio vômito. Nada ainda foi muito explicado, deixando fãs sempre com um peso ao se falar da sua morte. Morto aos 27 anos.

Valete de Copas
Voz rouca, força nos pulmões. A alma escorria nos lábios. Vida e morte sempre andando de mãos dadas. Janis Joplin saiu de casa aos 17 anos, juntou-se com amigos que eram poetas, músicos. Viveu uma vida de altos e baixos. Little girl blue, tinha no palco a presença de mil homens, mas seu coração era amargurado por milhares de amores mal-sucedidos. Janis será eternamente lembrada pelas milhares de barreiras que enfrentou para um dia está em cima de um palco. O preconceito de ser mulher, o preconceito de ser uma branca cantando com negros, a vida louca que vivia. Todos os pesos presos aos seus pés, fez com que ela se afogasse em drogas. Os seus shows eram verdadeiros espetáculos! Primeiro pela sua voz e segundo que eram únicos. Aos fim de sua carreira, Janis exagerava na bebida em cima dos palcos e acabava contando seus problemas. Era único, singular, puro! VERDADEIRAMENTE LINDO. Janis realmente não tinha um voz aceita por muitos na época e sua Junkie Life era desconhecida por muitos, apesar de ser muito questionada, mas Janis enfrentava tudo isso para passar música para todos. Como ela mesma dizia: "É só música, não fique triste, é só música..." Dizia isso para milhares de pessoas que a assistia, querendo dizer isso para si mesma. Janis morreu em seu quarto de hotel em 1970, por uma overdose de heroína. Morta aos 27 anos.

Valete de Ouro
Um poeta que transformava suas poesias em letras de música. Jim Morrison nasceu em 1943, numa família rigorosa, tradicional. Jim, mesmo assim, tomou para si, seus próprios ideais, opostos aos que seus pais lhe passavam. Boêmio, seguiu para Califórnia onde formou The Doors, banda cujo nome foi tirado de um dos livros de Huxley, "The doors of perception". Jim sempre queria conhecer novas sensações, novos povos, novas coisas essa curiosidade crônica transformou-o num descobridor, quase um solucionador de mistérios. Jim criava para si pseudônimos como "Mr. Mojo Risin", na música LA Woman. Jim tomou The Doors para si como família. Havia cumplicidade e amor entre eles, coisa que por ideais opostos, não havia em sua família. Verdadeiramente um poeta, um amante da arte que fazia. Porém, assim como os outros, seu pecado foi a bebida, além do consumo excessivo de drogas e sexo. Jim Morrison, viveu intensamente seus poucos anos de vida. Jim Morrison também morreu em seu quarto de hotel, em 03 de julho de 1970. Morto aos 27 anos.


Os quatro "J's" nos deixaram aos 27 anos. Todos, em menos de 3 anos (69, 70, 71). Os quatro Valetes de um baralho que mistura talento, alma, fogo, paixão, psicodelia, tristeza e mistério.

*: 03 de julho é meu aniversário
**: 03 de julho será o SuperRock.

Ah.

Ela olhava ao redor, procurando algo que parecia já ter encontrado. Na parede os feixes de luz faziam um novo quadro e existiam palavras escritas ao contrário. Tudo que deveria estar no seu lugar, estava errado. Ela ainda tinha sua máquina, seu portal para outra dimensão. Tinha música e tinha vida. Alguma coisa faltava. Alguma coisa estava fora do lugar. Ainda não se sabe se eram os tênis que não tinha sido lavados, ou um caderno que ficou para trás com toda sua alma. Ela precisava de algo novo, algo que nem o céu tinha experimentado ou o inferno tivesse agarrado em seu calor.

Seus olhos vermelhos, assim como os de outra garota, me faziam trair meu próprio desejo. Ela fazia graça, dançava e tocava pra chamar minha atenção. Hora tão menina, hora tão mulher. Acho que isso que me chamou atenção. Seus olhos em forma de fogo e calor. Seu ser envolvido em música e suor. Conhecimentos que não cabiam na palma da mão, palavras que pareciam descer de sua boca.

Transformando poesia em vida, em sexo. Me olhava e quando pude perceber suas mãos já me dominavam calorosamente, sem nenhuma escala a seguir. Parecia que de minha cintura saíam sons de um violão com cordas enferrujadas, numa mistura de blues e rock 'n' roll. Corria meus cabelos, meu rosto e minha nuca, não esquecendo-se de matar minha sede à saliva. Com olhos de quem não alimentava a alma, ela surrurrava no meu ouvido convites deixando seus cabelos roçando em meu rosto.

Ah, naquela noite aquela pequena menina, fez coisas que mulheres fazer. Boca e língua, mãos pernas. Na barriga escorria um pequeno rio de suor e tesão. Eu podia ouvir a guitarra de Jimmy Page rugir em meios gemidos e sussurros. Nada vulgar. Tudo sensualmente quente. Jim pedia incessantemente, "Light my Fire!" e a voz de Janis acompanhavam a voz dela. Quente, quente, quente.Um ode ao seu corpo. 15-14-15-16-15-14-15-15-16-15-17-15-14-14-17-16-17... A vida ali ganhava nova forma. Seu sorriso se abriu no meio de um silêncio e a mentira brinca de roda com a verdade. O bem e o mal encarnados em corpos que se entrelaçam, se invadem.

Naquela noite, ela encontrou! Ela viu que tinha tudo nas mãos. Ela tinha 17 anos guardados em seu bolso, tinha um casulo de borboletas, tinha um violão. Tinha sorriso no rosto corado, seus lábios sempre estavam vermelhos e seus cabelos aleatóriamente armado. Seu corpo estava sempre quente guardado dentro de conchas. Novamente, seu coração parara de bater. Ela se sentia tão bem por isso...

Então ela começa a dançar correndo para o mar. Debruça-se sobre a grama que nasce sob seus pés. Ela vendeu seu mundo por alguns trocados. Dançava e o vento a abraçava, a beijava, a jurava um amor eterno, fazia seus pés tocarem nuvens fofas e rosadas. Sua boca não parara de sorrir, até que se nota no fundo da cama que falta algo. Algo que ela tinha encontrado a pouco. Algo que agora já dobra a esquina de sua casa. Embora foi e com ele levou seu violão, levou seu sorriso, deixando-a com um ponto de interrogação gigantesco e sua mão fechada.

Sem nenhum adeus. Foi-se. Enquanto ela tomava seus drops azuis. Enquanto ela pintava sua boca. Foi-se. E parece nunca mais voltar. Algo que veio de lá, chegou frio, inerte, seco.

Sintetizando.



"Cresceu de dentro daquele buraco, uma árvore. Conhecida como árvore da verdade. Foi cultivada por muito tempo. Com folhas negras e de pequena estatura. Seu gosto: ... agridoce."

A morte de Anna Rosa



Voz de uma TV


"Procura-se o culpado por atear fogo no roseiral da Cidade. No meio desse mesmo roseiral, havia uma menina, sem identificação, com aproximadamente 19 anos. Procura-se por ele. Ele usava calças jeans..."


Mudando de Canal


"Atenção senhoras e senhores. Hoje findou o verão que já durava 6 meses. Procurem fogo, pois o inverno que se iniciará hoje, nunca foi visto na Terra. A Segurança Nacional já começa adiantando-se distribuindo agasalho, porém, falta agasalho em todos os países..."


Mudando de Canal


"... a música mais pedida, por amantes do rock'n'roll: The End -  The Doors."


Em uma rua qualquer.


- Ela morreu!
- Quem?
- Aquela moça.
- Sim, e daí?
- A gente não vai fazer nada?
- E por que fazer alguma coisa?
- Ela morreu!
- Onde?
- Ali na rua. Ela tava andando meio cambaleante, sentou-se na grama e morreu!
- Como você sabe?
- Alguma coisa me alertou quanto a isso!
- Ah tah. Não vou sair correndo quilômetros para ver alguém que supostamente não morreu!
- Vamos lá! E não são quilômetros! São metros.
- Vamos então, moleque!

Alguns minutos depois


- Aqui está!
- É, eu vi.
- Mas ela ainda tá corada.
- Sim, contando que ela tá com batom vermelho, desfaça muito bem o roxo-cor-de-morto.
- Não fale assim. Coitada.
- Que você vai fazer?
- Vou colocá-la em meu colo.
- Como assim?
- Assim, olha.
- Porra! Deixa isso aí! Ela tá morta!
- Mas ainda tá quente e corada. Só não respira.
- Deve ser porque tá morta!
- Pare de falar isso. Eu já sei dessa parte. Só quero vê-la um pouco.
- Vamos embora. A gente chama a polícia e explica tudo.
- Não. Ela ainda tá quente. Pode está viva.
- Duvido muito que esteja vida com esse tanto de sangue.
- Onde?
- Aí, entre os peitos.
- Verdade. Mas não tem nenhuma marca. De onde veio esse sangue?
- De mim é que não foi. E eu que não quero saber.
- Seja mais delicado.
- Delicado o caramba! Você pode ficar cutucando um defunto e eu se falo com mais energia sou indelicado.
- Não estou cutucando ela. Estou segurando-a.
- Não importa! Vamos logo!
- Não vou. Ela deve estar viva e ouvindo isso.
- O que é isso?
- Você sabe o que é. É uma moça.
- Isso não mongol. Ela morreu com as mãos fechadas?
- Ué. Não. Só com a esquerda.
- Abre e ver o que tem.
- Eu não. Isso é muita intimidade.
- Ah tá! E você ficar todo excitadinho por esse corpo não é muita intimidade não?
- Não estou excitado. Estou anestesiado.
- Chame do que quiser! Vou abrir eu mesmo.
- Não.
- Vou sim. (algum tempo depois) Não dá.
- Por que?
- Tá duro demais, ela não abre a mão.
- Por que será?
- Deve ser porque isso é um DEFUNTO! VAMO LOGO!
- Não.
- Então fica aí!
- Vai embora não. E se ela acordar?
- Tá com medinho é?
- Não, não é isso.
- Então o que é?
- Espera.
- O que?
- Ela abriu a mão.
- E o que tem na mão dela?
- Isso aqui.


Horas depois, voz de uma TV.


"Senhoras e Senhores. Os cientistas ainda não conseguiram explicar, mas hoje o Sol nasceu no horizonte, com a cor azul. Foi pedido para que toda a mídia espalhe por todos os ouvidos. O frio que tem matado milhares de pessoas no mundo inteiro, parece não atingir certas pessoas. Pessoas essas, se diferenciam por idéias contrárias ao governo, à própria mídia, à grandes críticos. Eles dizem que podem sentir o cheiro de mil rosas colombianas em toda rua e sentem-se com uma temperatura agradabilíssima."


Voz do entrevistado


"Eu não sinto frio algum. Só uma vontade imensa de fazer o que eu quero fazer."


Repórter


"Portanto, pedimos aos senhores, em nome da Segurança Nacional, que não saiam de suas casas. Permaneçam plugados nas tomadas e esqueçam do mundo lá fora, pois uma onda de distúrbios lisérgicos está atacando a maioria da população...


Espere um pouco.


Chegou agora uma notícia de última hora. Numa alameda qualquer de uma rua qualquer, que outrora todo o seu verde tinha secado, hoje amanheceu coberto com milhares de lírios e narcisos e tudo indica que foi o sangue de uma jovem, a mesma jovem que estava no roseiral, debruçou-se sobre a grama e tudo começou a nascer. Isso foi um relato, de uma das testemunhas do local. Mas voltando à outra notícia, tranquem suas casas..."


Ela partiu. E nunca mais voltou. 

The Beauty and the Beast I




- Oi
- Tudo bem com você?
- Tudo certo, e com você?
- Tudo bem, na medida do possível.
- Como assim? O que deixa seu possível na medida?
- Nada.
- Oras, o que tanto limita o teu "possível"?
- Nada, já disse.
- Se nada te limita, então você está bem sem medidas.
- Não. Só não quero falar pra você.
- Então escreva, você escreve melhor do que fala.
- Tchau.
- O que fiz?
- Nada.
- Onde vão tuas palavras na minha presença, baby?
- Não vão. Apenas se estatificam. Quietas permanecem.
- Há um motivo pra isso?
- Não sei. Você faz minhas sobrancelhas tremerem.
- Isso é bom?
- Isso é diferente.
- Então é bom. Mas ande, fale-me sobre teu possível tão limitado.
- Nada. É que algumas coisas são possíveis, e outras são apenas impossíveis.
- Custou dizer-me isso?
- Mais ou menos. Você me dá medo.
- Defina medo.
- Medo... oras. Uma sensação de insegurança ímpar. Frio na barriga que parece ter engolido o Alaska com sorvete. Ao mesmo tempo, é um combustível para fazer coisas mirabolantes, impossíveis.
- AHA!
- O que?
- Eu te faço ultrapassar o limite do possível?
- Eu não disse isso, de onde tirou essa idéia?
- Você disse que eu te dou medo. Depois definiu medo como combustível para coisas impossíveis. Ou seja, eu te dou vontade de ultrapassar limites. Qual limite quer ultrapassar hoje?
- Você é lunático e voluntarioso.
- Lunático. Quer me dizer de forma indireta que quer ir à Lua?
- Não, quero dizer que você é louco. Isso não acontece com você.
- Isso o que? Vamos, eu tenho a chave.
- Chave pra que?
- Pra abrir teus portões e tuas algemas.
- Acho que agora estou conversando com um louco completo.
- Acho que estou ficando com febre. Baby, you lighted my fire.
- (Risadas) Agora ví.
- Venha, você que escreve a sua vida.
- Isso que me assusta.
- O que te poe em condição de medo?
- Escrever minha vida. Tenho medo. Creio que não aprendi a fazer isso, e que também nunca fui ensinada.
- Relaxe my baby, relaxe. Não importa como você vai escrever. Se há margem, se há pontuação. É tua vida, e não importa quem leia, não importa se vende, não importa de que cor você escreve. Só escreva. Escreva...
- Será?
- Eu sei, você escreve melhor do que fala.

(...)

Nada para você

Guarde para você sua arrogância. Sua falsa indentidade criada para querer se sobrepor à mim. Guarde para você suas filosofias copiadas de alguém que nada conhece. Guarde para seu uso esses seus gostos não originais. Você pode chamar do que quiser, pode até ser alguma coisa que você disse, mas de qualquer forma, guarde para você.

Não me chame mais para beber com você, esqueça as conversas que tinhamos. Nada mais move isso. Virou uma grande massa de passado inerte e insignificante. Guarde para você sua prepotencia com quem só quer ver teu bem e sua infantilidade diante de sentimentos tão imensos.

Guarde o desapego e a sua tristeza fajuta e teatral. Esqueça de mim e de onde fomos. Seu sumiço já não me interessa mais. Dane-se, drogue-se, desfaça-se, desintegre-se. Faça o que quiser com o que você carrega no bolso ou na mochila. Teu calor não me importa mais, teus anéis também não. Então, leve com você o que já é seu e desapareça de mim.

Pinte-se das cores que você quiser, fique com as pessoas que você quiser, escreva o que você pensar, mas que seja um pensamento seu, que sejam suas cores e que sejam suas pessoas. Não entre no meu jardim para plantar ervas-daninhas. Não se estenda sob a minha sombra.

Não invada meu lar. Nem beba a mesma água que eu bebo. DESAPAREÇA na névoa que você trás. Se afogue na água quente que você quer beber. Absinta-se de mim!

Fico a pensar o qué você. Será mesmo que errado são todos? Olhando-se no espelho e vendo que não é ninguém e nem nada que tenha nascido de algo original. Tentando ser rebelde sem ter com o que se rebelar. Procurando achar razões em coisas que não viveu. Usando entorpecentes para se esconder de tão vazio é teu corpo.

Nada há mais, para você.

Ruby

"Ruby deve ser um nome de demônio"



Dizia-me Cassandra, em meio aos goles de whisky que tomava. Eu achava engraçado como ela sabia dos meus segredos sem me ver. Dizendo sem nenhuma modéstia, eu tinha um demônio em mim. Ruby realmente deve ser um nome de demônio. Ainda vou descobrir isso.
Eu já perdi a conta de quantos anos eu tenho, assim como perdi a conta de quantos goles de álcool eu tomo por dia, e quantos cigarros eu fumo, quantos quilômetros eu já andei. Só lembro de um passado estranho, que parece não ser meu.
Cresci em um velho convento na minha cidade, chamado "Convento Santa Seda". É um nome pequeno, da mesma forma que era meu quarto naquele lugar. Acho que propositalmente pintavam as paredes à cada 6 meses  de branco, o lugar me lembrava muito alguns hospícios que via nas fotografias de livros que haviam lá, com uma legenda que me assustava muito. É um nome estranho, mas para algumas das irmãs faziam total sentido.
Era um prédio muito grande. Por fora era um azul turquesa que se aproximava muito do tom do céu às 17:40h. Seus muros eram enormes, e de fora, lembro que apenas dava pra ver a ponta de uma das torres, onde ficava o sino. O sino por sua vez, era prateado. Grande como um carro, tocava sempre às 6h, tanto da manhã, quanto da tarde.
A rotina era muito puxada, e lembro de detestar aquele lugar. Havia no dia um momento em que não podíamos conversar, nem falar, nem sussurrar murmúrios. Acho que é por isso que tenho extrema paciência de ficar calada por muito e muito tempo. Estudávamos apenas português e matemática, e tudo baseado num livro de capa vinho, sobre o qual eu não gosto de falar. Havia apenas meninas naquele lugar. Via meninas que sentavam com pernas cruzadas, mostrando apenas parte da canela. Havia uma garota em especial que muito me chamava atenção, Keira. Keira tinha olhos bem puxados, como orientais, mas pele branca como de europeus. Ela tinha mãos suaves, e seu cabelo era bem longo e negro. Suas bochechas eram naturalmente rosadas, como a imagem do Santo Cristo que tinha no Hall do prédio.Apesar de todas nós usarmos o mesmo uniforme, parecia que ela sempre estava diferente. Todos os dias um novo sabor nos lábios. Seu corpo me lembrava muito uma ampulheta, e seu nariz era bem arrebitado, assim como seus seios, que lembravam maracujá verde. Redondo. Eu a olhava e sentia por entre as pernas um fogo que fazia pequenos espirais nas coxas. Disso me lembro muito bem. O vento bagunçava o cabelo dela, que no Sol, ganhava um tom acobreado.
Duas vezes a cada 5 meses o Padre P. ia nos visitar. Abre ("Ia nos visitar" é um eufemismo. Na verdade, verdade mesmo, ele pegava o dinheiro que estava no caixa, e roçava língua com algumas das irmãs). No dia 27 de Março de um ano que não me recordo, a minha vida mudou o rumo, se é que tinha algum. Particularmente, nunca me imaginei como as irmãs superioras que tinha lá, mas também não me imaginava em outro lugar. Mas nesse dia eu soube quem eu seria no dia seguinte.
O Padre entrou nesse dia pelo portão da frente, e do final do pátio, eu pude ouvir aquele som, como se tivessem aberto as portas de um grande curral de unicórnios. Comecei a ouvir os barulhos dos trincos do portão se abrir, e podia ouvir o fungar dos quadrúpedes que empurravam o portão de ferro naquele convento. Podia ver só uma luz que era só o reflexo do Sol em algum lugar. Ciano. A luz tinha essa tonalidade. O Padre nos visitara nesse dia em uma carruagem de fogo: Impala, seu nome. Mesmo que eu e a Keira estivéssemos nuas, molhadas, despida de toda vergonha e julgo, eu ficaria tão excitada, quanto eu ficara naquele dia, por enquanto. O Padre foi em direção a Keira, com olhos vermelhos, e um cheiro que agora eu conheço. Ele friamente a olhou, e falou algo em seu ouvido, que estava encoberto pelos cabelos negros que ela tinha. Eu no fim do pátio ainda só observava, meio anestesiada pelo Impala. O sorriso do Padre era discreto, mas mesmo assim fez com que todo o som naquele lugar se calasse para dar eco ao meu pulso. Lembro de Keira se levantando e saindo do pátio, seguindo o Padre que andava com as mãos no bolso. Vi ele correr as mãos sobre os cabelos dela, enquanto pararam na frente do Grande Cristo. Eu os segui, e pude ouvir a voz de Keira se desfazendo dentro da biblioteca. Lembro de assistir a cena por uma brecha que havia na porta. Vi a mão dele com um anel que tinha um crucifixo entalhado no ouro correndo o corpo de Keira, pela cintura, colo, coxas e pescoço, enquanto um pedaço da toalha do altar prendia a língua dela.
Na manhã seguinte, meu corpo ardia em febre e eu não conseguia parar de ver a mesma cena na cabeça. Keira andava com dificuldade nesse dia. Ela me olhava sem saber que eu já sabia. Na sala de enfermagem do convento, eu via remédios por todos os lados, até que algo que muito me chamou a atenção: ópio. Uma cápsula e acordei em um hospital com tubos na boca e no nariz. Uma limpeza fizeram dentro de mim. Lembro que o nome da enfermeira era de uma planta, mas costumava a chamá-la de Joana.

"Eu vou tirar você desse lugar, eu vou levar você pra mim"

Ela me dizia. Mesmo que eu não falasse nada, algo nela via quem eu realmente era. Talvez ela tenha me visto como um desenho com traços tortos e resolvesse me consertar. Joana, devia ter uns 45 anos, mas suas mãos ainda eram novas. Ela me levou para longe dali, ainda no colo. Ensinou-me a dirigir, mostrou-me seu quarto e me deu um quarto que fez questão de pintar de amarelo.

"O Sol sempre estará guardado aqui dentro"

Lembro dela me ensinando a ser mulher, lembro dela fumando comigo no telhado. Os cabelos dela eram alaranjados, e sua pele tinha sido camuflada à mão, com pequenas sardas que ficavam no canto externo dos seus olhos verdes. Sua pele já estava castigada, e sua voz era grave. Um dia ela me mostrou uma caixa que estava no armário central, tinha um alvo na tampa, e parecia que tintas haviam caído propositalmente de forma aleatória em cima dela. Deveria ter uns 40cm³, era feita de uma madeira pesada que não tinha sido bem trabalhada. Para falar a verdade, parecia que apenas tinham cortado alguns pedaços de carvalho e feito a caixa sem nenhum acabamento. De uma coisa não se pode duvidar: era uma caixa linda. Dentro dela haviam algumas cartas, alguns recortes, algumas fotografias, e passamos a noite toda bebendo café e rindo sobre as coisas que haviam lá dentro. Alguns vinis tocavam naquela noite, e meu coração estava tranquilo, até eu ver um recorte específico, que havia aquela fera na fotografia. Era lindo. Era frio. Me deixou excitada e me matou naquele momento. Ela me disse como se eu fosse parte dela, sem nenhuma palavra. Apenas saiu e eu segui como se nada me segurasse, apesar de que as vezes eu parecia estar com uma bola e uma corrente na minha mão. Andamos um pouco pelo quarteirão quando ela me mostrou um portão verde escuro, um pouco enferrujado, um pouco degastado.

”Boa noite, Augusto¹”

Eu não entendia muito, e o frio estava deixando meus lábios roxeados, mas tudo passou quando ela acordou a fera. Marrom. Aquele som eu já tinha ouvido há um tempo, o mesmo som da carruagem de fogo que naquele dia no Convento levou nuvens de chuva para Keira. E como eu queria andar nessa carruagem e caçar o cavaleiro que outrora me deu ópio para tomar. Marrom. Com rodas devidamente colocadas no seu lugar, com aro 18, pneus negros que lembravam muito patas de um Frísio jovem. Seu motor roncava como se um leão estivesse na minha frente. Lembro de Joana me levando para a rodovia. Ligamos o som bem alto, e ao som de Deep Purple, eu vi os ponteiros passarem a marca de 120. Não havia espaço para silêncio ou medo. Eu nasci aquele dia.
Assim fazíamos todas as noites. Saíamos para andar sem temer nada. Uma vida comum, num lugar comum. Até o dia em que eu vi Padre P. na vizinhança. Com o mesmo sorriso no rosto, com os mesmos olhos vermelhos, com os anéis nas mãos, sorrindo ainda pra pequenas crianças no pátio de uma escola. Olhando pra ele eu não pude controlar meus instintos negros. Taí! Deve ser por isso que meu nome seja de demônio, pois foi com um sorriso nos lábios, que levantei a poeira de onde eu estava, sacudi as paredes dos prédios com o motor da fera Marrom, e 120 foi pouco para meus pés. Naquele dia eu os coloquei em 156! Era o meu número. E aos 156 eu coloquei sobre aquele sorriso Sagrado, as quatro rodas, as quatro patas, o meu corpo! Fiz ele sentir o mesmo calor que Keira sentia, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, AMÉM!
Depois do exorcismo que eu fiz com minhas próprias rodas, olhei para trás, e pude ver a luz do Sol refletir nos olhos de Joana, que me olhava com olhos de dor. Seu coração parecia dilacerado, seu sentia dor dela, só de olhá-la. O arrependimento foi minha companhia.


"Baby, did you forget to take your meds?"

Desse dia então, meus pés correm todas as noites procurando por algo que parece que eu perdi sem nunca ter. Um vazio enorme em meu carro, que não preenchera e nem enchera nunca, até o dia em que a vi. Ao comprar seu café, eu a vi vestida de amarelo, com cabelos volumosos, negros como o rastro da minha máquina, lábios vermelhos e pelo branca. A visão do inferno, paradisíaca. Linda. Cassandra. Deixei pra ela então meu eu em sua rua, ainda a chamei quando o Sol se preparava para entrar em cena, ela me ouviu e me atendeu prontamente. Cassandra devia ter uns 19 anos, mas bebia como se tivesse 60. Ela não era acostumada a beber e bebeu todas, eu que era acostumada, bebi água com gás. Ela sorria pra mim e tinha algo nela que me fazia sorrir.  Nem era pelas piadas, mas pareceu que eu estava cheia. Keira, Joana e Cassandra, no mesmo corpo. Assim era ela. Doce, moleca, louca, louca e louca. Deixou a segurança para se agarrar na insegurança de me ver. E como se me conhecesse correu pra mim, com seu blue jeans, sujo com tintas que não sei de onde vieram. Jim Morrison naquele dia estava vivo no seu corpo, e casou-se perfeitamente com a Janis que estava na minha mão. Foi selado com grilhões. Ela encheu e preencheu o Marrom, transformando assim numa cor que ainda não tem nome, mas que chamo assim de cor-noir. Apenas isso. E eu já cheia de mim, cheia de Cassandra, lotada e transbordante, fiquei observando seus passos. Algo que nunca senti antes, algo que me fazia querer ficar perto. Antes disso, para que eu achasse a palavra que me definia naquele momento, preferi sair no meio do escuro, impiedosamente insensível.
FIM(?)